À espera de um milagre

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Era final do inverno de 1998. Ministro da Secretaria da Integração Nacional, Fernando Catão se via em uma situação de emergência extrema: a irregularidade das chuvas – e o uso descontrolado da irrigação – haviam minado o estoque de água do Boqueirão.

Campina Grande e demais municípios do Compartimento da Borborema dispunham apenas de 13 por cento da capacidade armazenada do açude. E o pouco que havia sobrado estava comprometido pela contaminação – notadamente agrotóxicos e fertilizantes.

Catão lembra que a situação era desesperadora. E merecia reações à altura.

Como era membro nato da Câmara de Políticas Regionais e tinha assento nas reuniões ministeriais ao lado do então presidente Fernando Henrique Cardoso, Catão relatou, com todos os matizes, o drama em curso na Borborema.

O presidente se mostrou sensível. E escalou o general Alberto Cardoso, Ministro de Assuntos Estratégicos, para conferir in loco a penúria dos campinenses.

Dias depois, o general desembarcaria sem alarde em Recife, de onde partiu de helicóptero para sobrevoar a bacia do Boqueirão, acompanhado de equipe técnica paraibana.

Voltou para o Planalto cientificando o Governo de que medidas urgentes precisariam ser colocadas em curso. A mais drástica previa a retirada da população de Campina Grande.

Também se cogitou a reativação da linha férrea Campina Grande-João Pessoa para o transporte de água. Ambas, porém, foram descartadas por motivos econômicos e logísticos.

Prosperou, contudo, a ação de captação de água no litoral, que seria transportada por frota de 300 carros pipas, extraída de poços emergencialmente perfurados na zona litorânea.

Essa água seria estocada em reservatórios metálicos, construídos nas regiões mais altas da cidade. De lá, seria injetada (mesmo sem tratamento) no sistema de abastecimento, evitando o colapso total.

Nenhum carro pipa chegou a sair da garagem. Deus, em sua infinita misericórdia e insuspeita generosidade, resolveu o problema.

Chuvas atípicas precipitaram sobre o Boqueirão, elevando os estoques do açude e restabelecendo o fornecimento d´água.

O milagre, como sabemos, não tinha efeito eterno.

Dezoito anos depois, a crise voltou a Campina Grande. E ainda mais violenta – resultado do pouco ou quase nada feito para evitar a repetição do desastre. Incrível, mas é verdade – ficamos silentes e estáticos durante todo esse tempo.

Depois de um ciclo feroz de seca, agravado pela construção de barragens na nascente da bacia do Boqueirão e ainda longe de controlar o consumo da irrigação, a cidade está esturricada.

O estoque do açude chegou esta semana a inacreditáveis 9% – um volume morto que espalha contaminação pelas torneiras campinenses nos intervalos de um racionamento penalizador.

O ciclo de chuvas, que não contribuiu para renovar o Boqueirão, já está se despedindo. Se esgota no final do mês. E, mais uma vez, os campinenses terão que voltar os olhos para o Altíssimo.

Em 98, Ele nos salvou. Agora, o milagre terá que ser ainda maior. Quase duas décadas depois, o mundo secou. A oferta de água minguou em todas as partes do planeta.

Se é verdade que Deus é brasileiro, eis uma boa hora para checar se seu berço fica lá na Campina Enorme, grande como a fé de seu povo.

Estamos, literalmente, à espera de um novo milagre. Ou da tardia – e ainda atrasada – Transposição.

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