Assim ? (Se lhe parece)

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Essa frase ronda minha cabeça há mais de 50 anos – tempo demais para guardar; tempo demais para esquecer. E uma eternidade para tentar ignorar.

A primeira vez que a ouvi foi em sua versão original italiana – Così è (Se vi pare) –, pronunciada por meu pai, Doutor René Ribeiro, após uma de suas incursões pelos teatros de São Paulo.

Intelectual, ele procurava inserir na agenda uma peça teatral sempre que ia a capital paulista. Daquela vez, tinha conferido a obra de Luigi Pirandello (1867-1936).

Sempre fui sujeito pragmático, mais afeito aos números do que a filosofia, mas não passei incólume pela casa do Derby, em Recife, onde a família Ribeiro respirava cultura. E o relativismo filosófico de Pirandello é uma dessas marcas que o tempo não ousou apagar.

Assim é (Se lhe parece) narra a saga de um trio – senhor Ponza, sua esposa e a sogra Frola – ao chegarem a uma cidade italiana de província no início do século XIX, despertando a curiosidade dos moradores em função do arranjo familiar fora dos padrões (marido, mulher e filhos).

A curiosidade se transformaria em histeria coletiva quando a sogra, que não morava com o casal, apresenta a versão de que o genro impedia suas visitas à filha porque tinha um amor obsessivo-possessivo em relação à esposa. E redundou em pandemônio diante das revelações do senhor Ponza de que sua mulher não era filha de Frola, mas sim sua segunda esposa, com quem casou depois da morte da primeira.

O pano desce no momento em que a filha-esposa é chamada para interrogatório e pronuncia a célebre frase através da qual Pirandello consolida o viés relativo que permeia toda sua obra: “Eu sou aquela que se crê que eu seja”.

Assim é (Se lhe parece) pegou o jovem Roberto pelas mãos e o convidou para vislumbrar, pela primeira vez, o contraste entre a realidade e a aparência; entre o que se crê que é e o que se é de fato – ou o que pensam que você seja.

Um drama filosófico que fica ainda mais intricado na medida em que o homem se vê obrigado a assumir diversos papéis ao longo da vida, redundando na dissolução da identidade. De personagem em personagem, nos transfiguramos para cabermos nos espaços sociais.

Então, afinal, quem é você?

Será que é mesmo o que creem que você seja?

É confuso, eu sei. O relativismo quase sempre nos conduz a este beco mental sem saída.

O entendimento – como não poderia deixar de ser – também é relativo. Pois nenhuma fórmula ou equação me permitiu, até aqui, medir a distância entre o verdadeiro e o falso.

A melhor soma calculada ao longo dessas cinco décadas foi, claro, o relativismo de todas as coisas. E, de insight em insight, até consigo imaginar o suposto encontro entre Pirandello e Einstein, costurando as teses que recheiam o relativismo moral.

Dessa costura, na melhor das hipóteses, se consegue entender a impossibilidade de existir uma visão una da realidade – nos obrigando a vestir, cada um, suas próprias verdades e valores morais.

Fecho meu próprio pano enxergando o que Pirandello nos apontou com suas provocações:

O mundo – em toda sua imensidão – cabe dentro de um chapéu.

Pois tem o tamanho exato da nossa cabeça.

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