Dádiva Divina

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Natal tem que ser alegre. Nenhuma crise ou contenda pode empanar o nascimento de Cristo.

Este é o ponto em que muitos vão dizer:

– Hum, falar é fácil!

Mas acredite: não é. Ouso dizer que, particularmente, a resistência desse espírito natalino é, em larga medida, algo até miraculoso. Pois sou um sobrevivente de Natais terríveis.

Inicio esta narrativa pelo Natal de 1951.

Naquela época, meus Natais eram preparados pela tia Maria Inês, diretora do Preventório Bruno Veloso, em Boa Viagem, no Recife, que acolhia crianças carentes, órfãs de pais vivos.

Numa época em que ainda não existiam antibióticos e a tuberculose campeava como uma peste letal, o Estado apartava os filhos de seus pais doentes e os mantinham sob sua guarda.

Em meio a tanta saudade e incertezas, tia Mimim (como era chamada carinhosamente) garantia um Natal feliz para todas aquelas crianças. Com donativos, preparava a ceia e conseguia colocar presentes debaixo da árvore com o nome de cada pequeno. Sobrinho e vizinho do proventório, também ganhava o meu.

Um curto circuito, porém, acabou com a magia daquele Natal. Ao acordarem, as crianças encontraram árvore e presentes carbonizados. Tinha 5 anos e 7 meses. E jamais consegui esquecer o que os meus olhos viram naquela manhã de 25 de dezembro.

O que eu não sabia, na época, é que ainda viveria Natais infinitamente mais terríveis.

E um deles foi em 1984.

Uma semana antes, no dia 13, meu primo, irmão e sócio Paulinho Brandão seria brutalmente assassinado. Ele não foi apenas morto, foi vandalizado por rajadas de metralhadoras, numa tentativa – já naquela época – de perpetuar a corrupção.

Por obra de uma família amaldiçoada, quando o Natal chegou eu estava apartado dos meus filhos, sob forte proteção, pois também estava marcado para morrer.
Seria o bastante para encarar os Natais seguintes com tristeza?

A vida acreditava que não. E eu voltaria a experimentar dor ainda maior no Natal de 1990.

Estávamos celebrando quando chegou a notícia de que meus pais – René e Beatriz – haviam sofrido um grave acidente. Ao chegar no hospital encontrei meu pai inconsciente e em choque. Na sala de emergência ao lado, minha mãe ainda estava lúcida. Me pegando pelo braço, ela perguntou angustiada: – E René!? Como está seu pai?

Na última conversa que mantive com minha mãe fui obrigado a lhe contar uma mentira.

– Está bem, mamãe. Também perguntou por você.
Às 4 horas da madrugada do dia 25, ambos estavam mortos. E poucas dores podem ser mais fortes do que sepultar seus pais, de uma só vez, enquanto o mundo comemorava as alegrias natalinas.

Em 2009 mais um Natal chegaria trazendo notícias apreensivas.

Supostamente no auge da minha vida, empossado no mandato de senador da República, eu recebia o diagnóstico de câncer no pulmão.

As tosses constantes não eram alérgicas. Não se resolveriam com xaropes nem descanso. Era preciso sobreviver, a partir dali, a muitos Natais de incertezas – exatamente cinco anos para, enfim, ser considerado curado.

Conseguiria vencer ou seria vencido?

Para os médicos, ganhei na loteria da vida. Para os meus, recebi a dádiva de um milagre. Pois o diagnóstico precoce permitiu uma cirurgia bem sucedida.

Quase oito anos depois, reconheço que a Mão Divina esteve sobre mim.
A jurisprudência dessa vida me confere, portanto, a força da certeza de que Natal é sim para ser celebrado – com a família e com Deus no coração.

É um exercício de fé.

E, também, de agradecimento: estou vivo e com saúde, como posso botar defeito no Natal de 2016?

Que venham outros, que venham mais.

E que me encontrem aqui, mais uma vez de pé – disposto a lutar e a manter a alegria de viver mais um Natal.

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