Elo perdido

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Lamentavelmente não conheci meus avós – nem paternos nem maternos. Quando nasci, todos já tinham partido – um infortúnio típico do tempo deles, em que longevidade era fenômeno raro.

O Doutor René e Dona Beatriz também me deixaram cedo, vitimados por acidente automobilístico.

Meu pai era filho único. Em compensação, minha mãe me legou uma grande e unida família.

Ao todo eram sete tios, pelos quais tinha genuíno amor. De bônus, vieram os primos. Éramos dezesseis.

Essa convivência estreita e amorosa me ensinou que famílias são raízes que nos dão identidade. E nos forjam como seres humanos.

A parte ruim desse enredo é que, ao longo da vida, assistimos essas raízes serem arrancadas. No meu caso, a primeira geração foi toda extirpada.

A última delas há poucos dias, com a partida da viúva do meu tio Silvio. Tia Neide era a mais nova de uma safra que agora está extinta.

Quando estavam por aqui, viveram dias conturbados em um mundo muito difícil.
Para as novas gerações, trata-se de um universo quase paralelo, circunscrito aos livros de história.

Mas eu tive vislumbres claros do mundo em que meus antecedentes viveram.

Meus avós, por exemplo, geraram seus filhos em meio às angústias da Primeira Grande Guerra. A prole foi crescendo entre 1910 e 1025, justamente no ciclo do conflito mundial.

A segunda geração, formada por mim e meus primos, também conheceu dias difíceis.

Nosso desembarque na vida coincide com a Segunda Guerra Mundial – tempo em que as agruras e incertezas fizeram as taxas de natalidade declinarem.

Não era mais tempo para grandes proles. E a média de oito filhos por família caiu para um par.

Os Ribeiros ilustram bem esse novo perfil, gerando apenas eu e minha irmã Celina.
Um antes, outro depois da guerra.

Em casa, costumávamos dizer que Celina foi concebida quando não se sabia, ainda, que um tal de Hitler espalharia o medo pelo mundo. E eu fui fruto da comemoração, sete anos depois, no cessar fogo.

Esses fatos e coincidências construíram minha história. Fizeram quem sou. Mas representam, hoje, apenas detalhes – panos de fundo de um cálculo matemático, recém atualizado com a partida de tia Neide, que me apresenta um saldo fulminante: o das perdas.

Perdi 100% da minha primeira geração. E 50% da segunda. Dos 16 primos, só sobram oito. E a calculadora da vida continua a pleno vapor…

As perdas cristalizam a certeza de que é tempo de viver. E a pleno. Pois o relógio da vida é implacável. Seu tic tac não cessa.

Sobrevivente desse elo perdido, vivo em alta voltagem. Trabalhando alucinadamente.

Cuidando dos filhos. E dengando os netos. Enquanto, no coração, grafo cotidianamente uma frase recém lida que expressa, com precisão, um termo que só existe na língua portuguesa:

“Saudade é o amor que fica”.

Amei a todos daquela geração que se foi. E é por isso que mora aqui, dentro de mim, essa multidão provocando gratas e pesarosas lembranças.

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