Enamorado

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Sim, tenho ciência de que datas como a de hoje se transformaram em verdadeiras armadilhas comerciais, visando alavancagem de vendas.

Tenho ciência, também, que a mercantilização empana e subtrai os componentes afetivos destes momentos.

E limita o que deveria ser constante.

Afinal, Dia dos Namorados é todo dia. Assim como o Dia das Mães, dos Pais, das Crianças.

A fixação de uma data, convenhamos, é tão somente uma estratégia (muito bem bolada) de marketing.

Mas por que não aproveitá-la?

Por que não extrair o melhor desses dias, que certamente não passam por lojas apinhadas e pela escolha de presentes caros que abalam nosso orçamento?

Permitam-me, portanto, enveredar pelo lado sentimental. Romântico mesmo.

Sim, sou um deles. E do tipo incurável. Aliás, nem tenho procurado tratamento. Se é para ter alguma moléstia, que seja do sentimentalismo; Se for pra morrer, que seja de amor.

E meu romantismo me diz que o ser humano deve procurar estar – sempre – enamorado.

E quando defendo este estado de encantamento, respeito sua manifestação na pluralidade. Pois sou “antigo” o suficiente para saber que o amor não estanca diante de barreiras convencionais.

Convencional ou não, o amor precisa mesmo é de intensidade. E esta é a convenção que eu e Sandra procuramos manter em nossa relação.

Os anos passaram. O desejo de namorar não.

E acho realmente intrigante que os casais percam a capacidade de enamorar. Pior: já nasçam com essa deficiência, sem esse admirável plus.

Realmente, foge a minha compreensão a insensibilidade que esquece de trazer o componente romântico para suas relações; que ignora a regra de ouro dos pequenos detalhes que fazem grandes diferenças – a começar pelo bom dia.

Acho profundamente estranho, por exemplo, a existência de pessoas que passam por datas como estas sem um gesto de afetividade em relação a seus pares – gente com quem partilha a vida.

E eles existem. Aos montes.

Recentemente, testemunhei uma conversa de uma jovem senhora sobre o dia 12 de junho. E ela dizia: “Não quero gerar qualquer expectativa, pois sei que meu marido jamais me daria qualquer coisa”.

Sei que ela não esperava exatamente um presente. Poderia ser uma flor. Uma caminhada encerrada com um sorvete. Uma sessão de cinema.

A negação disso, meus caros, realmente não alcanço nem entendo.

Seres incapazes de se sentirem felizes ao proporcionar felicidade aos seus pares estão fora do meu conceito mental. Como não sentir prazer em dar prazer?

Com todo o respeito, confesso: senti vontade de anonimamente presentear aquela mulher esquecida.

Por motivos óbvios, não o farei.

Mas, cá pra nós, é exatamente isto o que merecem essas memórias fracas de coração insensíveis: testemunharem seus pares sendo lembrados e aquecidos pela afetividade que vem de fora.

Talvez – quem sabe – alguém menos prudente o faça.

De uma coisa tenho certeza: este amor corre extremo perigo. Pois amor é para ser nutrido.

por gestos (grandes e pequenos).

Na ausência deles, o sentimento definha – se mutila na aridez e secura d’alma.

Não sou nenhum Freud, mas estas sete décadas de vida me trouxeram uma convicção: esse “esturricamento” sentimental é característica de quem não gosta de si. Pois quem não se ama é automaticamente impedido de gostar do outro.

Enamore-se de si próprio. Aproveite a data para iniciar um solido, tórrido e eterno caso de amor consigo mesmo.

E então será muito mais fácil – natural até – viver a plenitude dos Dias dos Namorados que virão.

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