Enganando os neurônios

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Setembro chegou e me encontrou de mochila nas costas, calças jeans e tênis, a caminho da sala de aula em pleno outono norte-americano.

É com essa indumentária, e nesse ofício, que passarei os próximos trinta dias longe de tudo – inclusive desta coluna que preparo sempre com imenso carinho para dividir ruminações e impressões desse mundo que tanto me provoca estranhezas e, ao mesmo tempo, me encanta.

A fuga para escola surpreende até a mim mesmo. O retorno se dá 47 anos depois da saída – canudo nas mãos, coração cheio de satisfação – da Faculdade de Economia da Universidade Federal de Pernambuco.

Naquela época, abriu-se uma bifurcação diante do jovem Roberto:

Uma via me levaria a pós-graduações, cursos de especializações e afins, como seria previsível em uma família de intelectuais.

A outra me trouxe até aqui, nesta jornada que nunca interrompi e que foi iniciada precocemente. Aos 20 anos, abracei o empreendedorismo e me tornei empresário.

Nunca me arrependi, mas confesso: sentia falta – ainda que não admitisse em voz alta – da ambiência escolar. A genética do Doutor René vez por outra grita. Neste instante da vida, decidi ouvi-la.

Ao decidir voltar, realizo também um feito inédito: nunca antes (em época alguma da minha vida, seja na juventude ou maturidade) estudei fora do País.

Contrariei, desta forma, mais uma regra de família.

Meus pais estudaram fora do Brasil. Minha irmã Celina também, assim como meus filhos e alguns dos meus netos.

As desculpas que arranjei para adiar a sala de aula (e em tantos momentos nelas acreditei) foi a escolha que fiz lá no começo.

Certamente a estrada que peguei me conduziu a uma obsessiva presença empresarial.

Somente agora, estimulado por Sandra, reuni coragem e vontade nesta mochila que carrego, ombros leves, nas ruas que me conduzem a este retorno à escola.

Sim, sinto-me rejuvenescido. E admito: estou construindo a velha narrativa de não me sentir velho – um enredo que sempre cai muito bem entre livros e jeans; entre canetas e cadarços de tênis.

Atendo, por tabela, à saudável recomendação de ativação permanente dos neurônios – uma enganação boa que só faz bem.

A receita é antiga: na velhice, faça coisas novas.

Mesmo sabendo que papagaio velho não aprende coisas novas, resta o brinde da ativação das células cinzentas e o adiamento, quiçá sine die, das perdas mentais.

O curso será rápido, mas intensivo. Aulas em dois turnos. Recreios para passeios e meditações.

Depois – claro – conto o saldo dessa aventura.

Até outubro!

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