Eu, Zé e a vida

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É inapelável: a idade traz consequências – algumas (poucas) boas; outras nem tanto.

Entre as boas venturas da longevidade está a experiência (que muitos confundem, inadvertidamente, com sabedoria). Ponto. Ou quase isso.

A verdade – e não vamos camuflá-la – é que a lista dos infortúnios é mais longa. Tendo, lá nos primeiros lugares dessa relação, o peso incomensurável, quase insustentável, que o tempo exerce sobre os ombros dos longevos.

O impacto físico (orgânico) da idade impõe restrições. E nos lembra, dia após dia, que temos prazo de validade.

A certa altura da vida temos de fato que abrir mãos de coisas. E entender que já não se “serve” mais para determinadas atividades.

Não se vê, por exemplo, piloto de Fórmula 1 de 70 anos. Mas se vê a vitória de um estreante de 18 anos. A juventude, portanto, pode queimar etapas, superar expectativas, surpreender.

A velhice, porém, é mais ortodoxa. Segue seu curso sem muita margem para feitos inéditos – como, por exemplo, nos levar ao pódio de uma maratona.

Há realmente distâncias que separam novos e velhos – e ela jamais se encurta.
Para além dos efeitos físicos, a “lista negra” da velhice ainda traz esse fenômeno desalentador que é o desaparecimento do seu entorno.

Explico: quando se chega aos 70, como eu, seus contemporâneos (pessoas de sua geração e as da geração anterior – pais, tios, professores) vão ficando pelo caminho.

Só mesmo com muita sorte – e um punhado generoso de bênçãos – se consegue envelhecer ao lado da mãe ou do pai. Dos avós, então, é um verdadeiro milagre.

O normal é, de fato, assistir esse desaparecimento dos que lhe cercaram durante boa parte da vida.

E isso, naturalmente, provoca dores e angústias. Causa, sobretudo, constantes saudades. E aquela desconfortável sensação de que é um “sobrevivente”.

Mas pode piorar – e piora.

Pois na medida em que o calendário avança, você se torna alvo de preocupações.
Não se trata mais de desalento com o entorno que desaparece. Mas com o seu próprio desaparecimento, que se transforma em preocupação de amigos e parentes.

Pode reparar. Lá no fundo dos olhos dos que nos amam, mora o estado de vigília misturado com angustiante expectativa. Eles nos alertam, mesmo sem querer, sobre uma verdade inconteste: a vida passa.

E foi um desses alertas que, fundamentalmente, me inspirou a tratar desde tema.
Em uma missiva curta, mas profunda, meu amigo José Fernandes Neto me remeteu diretamente a este prazo que se esgota.

Ele diz:

“Roberto, até que enfim, somos dois setentões. Se nos próximos dois anos eu ainda viver, você novamente desgarrará de mim.

Por isso, garanto que se eu viver mais dois anos viverei ainda os próximos oito anos somente para, quando aí, oitentões, fazermos outra viagem como a dos inesquecíveis setentões”.

Zé faz referência ao meu ritual de comemoração das idades de “rombo”, quando sempre festejo com amigos e parentes. Na última, embarcamos todos para a Amazônia. Zé estava lá, assim como esteve nas comemorações dos 60 anos em Angra dos Reis.

Nos planos do meu amigo, oito anos mais velho que eu, é estarmos firmes e fortes na viagem dos 80.

A ele, minha resposta em forma de prece:

– Sim, Zé, estaremos. Pois sobreviver é nosso maior talento.

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