“O Brasil é doutor em corrupção”, diz professor da UFPB

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O exercício político no Brasil hoje é um espetáculo onde o importante é dominar a cena, construindo um discurso, que, apesar de vazio, convença. Para o professor da UFPB Milton Marques júnior, especialista no pensamento grego, o Brasil surpreende “porque nesse campo inventamos mais que os gregos”. Nessa conversa com o Correio, Milton Júnior explica a concepção do que é política, democracia e Justiça para os gregos, onde elas foram desvirtuadas e o que é necessário fazer para mudar de rumo, que ele reduz a uma única palavra: educação. Mas educação não nos moldes do que está sendo feito, onde não há compromissos com as novas gerações. Ele defende escolas integrais estruturadas para promover uma revolução na formação dos alunos.

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– Dá para avaliar o momento político, especialmente, o brasileiro, a partir do legado que os gregos deixaram?

– Pode fazer. Não só pode fazer, porque nesse campo nós inventamos mais do que os gregos. Em se tratando de corrupção, inventamos muito mais. A corrupção é impossível de ser extinta. É como chuva, seca, neve, fenômenos da natureza que nunca serão extintos.

– Por quê?

– Porque é um fenômeno humano. Pode ser combatido duramente e, obviamente, minimizado. Na Grécia antiga havia corrupção. A Grécia inventou a democracia, exatamente, por conta de arbitrariedades de governantes, que se mantinham no poder por uma questão de hereditariedade, de nobreza. E um governo plenipotenciário faz o que bem entende porque não tem que prestar contas.É irresponsável e, inclusive, forja genealogias para dizer que é o tal.

-Dá para ilustrar essa afirmação?

– Por exemplo, um dos últimos tiranos gregos chamava-se Pisistratus, que forjou uma genealogia com um mito chamado Nestor de Pilos – herói mítico grego – que participou da guerra de Tróia como um dos mais velhos combatentes, mas na condição de mentor dos dois grandes generais Agamenon e Menelau. Como um dos filhos de Nestor de Pilos se chamava Pisistratus, o rei forjou a genealogia dizendo que descendia de Nestor de Pilos para poder se fazer um grande herói.

– Deixou um mau exemplo para a História…

– Mas ele fez algo bom: se achando um descendente de Nestor de Pilos ele mandou que um grupo de poetas passasse para o papel o que só existia na oralidade: a Ilíada e a Odisseia só para manter a narrativa de sua História. Então, a corrupção sempre existiu e sempre via existir.

– E em todas as civilizações?

– Na Grécia antiga, na Roma antiga. Por isso, na Grécia se instituiu a democracia no século V antes de Cristo. Mas a democracia não está infensa à corrupção e a limitações. Tanto é que quando se instituiu a democracia se viu que determinada pessoa que exercia a função pública estava sendo muito admirado pelo povo e muito seduzido por essa admiração.

– O que os gregos fizeram para combater, digamos, essa vaidade?

– Convocavam um assembleia de votação, na Ágora grega para decidir se aquela pessoa que estava com muita fama e caindo nas graças do povo não deveria ser exilada por algum tempo. Foi quando se instituiu o ostracismo: dez anos exilado exatamente para que perca essa lembrança de sedução do povo por ele e dele pelo povo.

– Algum outro exemplo da corrupção entre os gregos?

– Falam que Péricles, por exemplo, corrompeu e foi corrompido para a construção do Parthenon dando a preferência a Fídias para a construção desse templo que é um dos mais perfeitos do mundo antigo, que teria envolvido mais dinheiro público do que o necessário. Não só a corrupção, mais o aumento na verba, o sobre preço ou superfaturamento.

– Por que no Brasil as próprias instituições que deveriam fiscalizar e controlar acabam se corrompendo?

– Todos devem ter acompanhado há uma semana que um dos conselheiros do Carf – Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – foi preso pedindo propina. Um órgão, que deveria fiscalizar, cometendo corrupção. Cometendo o crime que deveria combater.

– Fica até complicado explicar…

– Por que isso acontece? Porque não temos perseverança no que fazemos: o brasileiro é campeão mundial de falta de perseverança, é imbatível nesse ponto. Começa algo com muita diligência e muito entusiasmo, isso dura uma semana e vai embora. Veja o combate à zika, que teve até autorização para entrarem nas casas atrás do mosquito transmissor, forças armadas e depois de uma semana… Para o Brasil, uma semana para fazer espuma, fumaça é o necessário, porque tudo é eleitoreiro, é politiqueiro.

– Diante desse quadro, fazer o quê?

– É preciso consistência, um combate diário à corrupção. Mas também não podemos pensar que a corrupção vai acabar simplesmente por causa do combate diário. A corrupção acabará quando nós, simples mortais, anônimos, também não compactuarmos com ela.

– No entanto, ela está presente na rotina…

– No dia a dia. Se renunciarmos à corrupção e passarmos a combatê-la individualmente, junto com as instituições, pode ser que dê certo. Porém, é preciso que haja não só leis para combatê-la, mas que essas leis sejam exeqüíveis, eficazes, porque lei sem punição não resolve absolutamente nada.

– Na verdade, falar é fácil, difícil é cada um fazer sua parte…

– A nossa questão é entendermos qual é a competência de cada um e qual é a obrigação de cada um. Nós estamos sempre procurando a Justiça fora da gente, quando a Justiça está dentro de cada um.

– O brasileiro acostumou-se a recorrer ao Estado para que ele arbitre sobre qualquer desavença…

– Exatamente, que o Estado faça algo que é da nossa competência. O Supremo Tribunal Federal teve que decidir um dia desses se o consumidor poderia levar comida de fora para dentro do cinema. Você não pode levar sua pipoca de casa, porque teria que comprar a do cinema? Foi parar no Supremo. Isso é ridículo, mas no Brasil tudo se judicializa e termina no Supremo, até roubo de galinha, quando o Supremo deveria decidir sobre coisas restritas à Constituição.

– Por que a política no Brasil ganhou dimensões completamente diferentes do que os gregos pensaram?

– Política na sua essência é uma coisa. O que se faz no mundo – com raríssimas exceções em países de alto desenvolvimento humano e político, como os escandinavos – inclusive no Brasil é politicagem.

– O que era a política para os gregos?

– O grande legado que os gregos nos deixaram foi a política e a reboque da política a democracia. O que é a política para os gregos? Os gregos instituíram a polis, que é a cidade, lugar onde se resolvem todas as questões importantes para o seu desenvolvimento e dos cidadãos. O cidadão é o polites , aquele que habita a polis. E a ação que esse cidadão desenvolve para o bem comum se chama política. É todo ato do cidadão em prol do bem comum.

– O bem coletivo é mais importante?

-Isso significa que ele abre mão de privilégios. Ele pode, inclusive, estar fazendo algo contra ele individualmente, mas que vai beneficiar a todos e como vai beneficiar a todos, aquele benefício vai voltar para ele em determinado momento.

– E a democracia?

– A democracia se reúne em torno dessa política porque vai ser o poder dado ao povo, que governava com as decisões, evidentemente, que havia o mandatário escolhido pelo povo, em eleição livre, que ia realizar as decisões.

– Qual a comparação com hoje em dia?

– Não se faz mais política no sentido de visar o bem comum e sim o bem pessoal. Não há nenhum partido no Brasil que pense no bem comum. A política tornou-se uma profissão para, não lhe dar um sustento digno, mas para alguém enricar e se perpetuar no poder fazendo falcatruas. E se perpetua gerações após gerações. O nepotismo é uma cadeia que não se quebrou no Brasil. A política passa a ser hereditária.

– Interessante é que muita gente acredita que tudo é só uma questão de lei…

– Não é só uma questão de lei. A lei tem que existir porque não há sociedade sem leis. A democracia lhe dá direitos, porém os deveres e os encargos que ela traz para sustentar os seus direitos são muito maiores. Para ter um direito básico há deveres 24 horas por dia.

– É um problema de educação?

– Por que não vamos para frente? Porque não há nenhum partido político que realmente faça e realize um projeto nacional de educação. Existe conversa fiada, mas não se faz educação falando de educação, com slogan. Se faz com oito horas por dia durante um mínimo de oito anos de escola pública obrigatória. Com professores bem pagos e sendo cobrados pelo que fazem, qualificados. Com bibliotecas e laboratórios e com garantia de alimentação digna e assistência médica aos alunos, além de recreação.

– A escola com essas características não deixaria praticamente tempo livre para as crianças…

– A escola integraria todos como um lugar agradável, de tal maneira que se ocupa a criança e o adolescente nesses oito anos que ele vai chegar em casa para dormir. Não vai chegar em casa com a mente vazia e nem será cooptado para fazer outras coisas. Então, a primeira coisa que nos falta é uma política séria para educação.

– Falta conteúdo?

– O importante hoje é o discurso. Antes, quando alguém se propunha a fazer as decisões vinham do povo. Então, era a reunião do povo na praça pública que decidia como é que a coisa ia ser feita. O comandante só poderia tomar decisões sem consultar o povo se fosse uma guerra iminente. Evidentemente que uma cidade-estado como Atenas, com 50 mil habitantes não era um País com 200 milhões de pessoas. Não dá para botar todo mundo na rua para discutir, embora haja planos e projetos que veem da população, mas ela não é ouvida.

– A representatividade frustrou?

– Frustrou, porque, na realidade, não temos representatividade, que é só aparente. Ela existiria se houvesse o voto distrital, onde o deputado é cobrado pela comunidade, pelo projeto que ele apresentou e pelo que prometeu à região. Aqui não existe isso. Absolutamente. O candidato faz uma campanha difusa e quando chega no Congresso acabou: ele não presta contas a ninguém.

– O senhor vê alguma saída?

– A convocação de uma Constituinte sem nenhum desses parlamentares que estão no Congresso atualmente. Botar gente nova que ainda não está comprometida, não está viciada nesse processo político. E evitar a reeleição indefinida, que é um grande mal, porque faz com que essa representatividade seja sempre nula e que o discurso, a encenação valham mais do que qualquer realização.

– Que exemplo o senhor usaria?

– Vou dar um bem prático. Os discursos são os seguintes: Lula construiu 50 escolas técnicas, quando foi presidente da República; Dilma expandiu a universidade. Construir é fácil, expandir em termos de espaço físico é muito fácil, há dinheiro e muito. Quero ver é equipar com bibliotecas, com laboratórios, contratar professores suficientes – porque na cabeça do político, professor não faz nada, só dá aula. Embora esse professor possa dar conta de 50 assuntos diferentes cuidando de 60 pessoas numa sala de aula. O que interessa é a estatística e não a essência, o conteúdo.

– É só jogo de cena?

– Estamos vivendo o momento da “espetacularização”, em que o discurso vale mais do que qualquer raciocínio. Até porque raciocinar é difícil, muito custoso. Se as pessoas raciocinassem não votariam em nenhum desses políticos que estão aí. Mas uns votam porque não raciocinam outros porque precisam , outros por laços de amizade.

– A Justiça não tem culpa pela lentidão para tomar decisões, pela execução das penas, enfim pela impunidade?

– O livro mais importantes do Ocidente – deixemos a Bíblia de lado – é A República de Platão. É um longo diálogo para explicar o que é Justiça, que é fazer o bem comum. É tão importante, que é melhor você sofrer uma injustiça do que praticá-la. É tão importante que ela nunca está fora de mim. Então, tenho que descobrir a Justiça dentro de mim, praticando-a todos os dias para que possa descobri-la fora de mim. Outra coisa que Platão disse e ninguém aprendeu: nós somos responsáveis pelos nossos próprios atos. Nós costumamos culpar os outros ou transferir a responsabilidade.

– Talvez seja o mais genuíno de nossa essência?

– Exatamente: nossos atos. Se nos responsabilizáramos por eles, iremos para frente. Isso significa saber escolher e, sobretudo, reivindicar.

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