Paraibanas criam ‘fanpage’ para relatar ass?dio sexual cometido por professores

13
0
COMPARTILHE

Precisamos falar sobre assédio. Levantamento feito recentemente pelo projeto feminista Think Olga mostrou que mulheres começam a sofrer abuso sexual ainda na infância. Aos nove anos de idade, em média. A estatística expõe a cultura do estupro e a necessidade de combater esse comportamento doentio que ameaça milhões de garotas diariamente.

Leia mais Notícias no Portal Correio

Se você é mulher, conhece o incômodo de ser “cantada” por homens a quem você não direcionou o mínimo de interesse – e que muitas vezes são completos desconhecidos – e perdido as contas de quantas vezes ouviu “fiu fiu” ao caminhar pelas ruas.  Porém, não é só em vias públicas que estamos vulneráveis. Os abusos muitas vezes acontecem em um dos lugares onde mais deveríamos nos sentir seguras: na escola.

Foi após perceber essa realidade que seis meninas da Paraíba decidiram estimular mulheres a jogar luz sobre suas experiências com assédio em instituições de ensino. O meio escolhido foi a rede social Facebook. Na comunidade ‘Eu tinha um professor que’, elas contam histórias de abusos sexuais sofridos em ambiente escolar. 

Excitado, professor da capital paraibana agarrou aluna e a beijou

Foto: Excitado, professor da capital paraibana agarrou aluna e a beijou
Créditos: Reprodução

“Nossa principal motivação foi perceber que muitas meninas sofriam assédio dentro das escolas e raramente eram acolhidas ou falavam sobre isso. O objetivo da página é servir de espaço para debate e desabafo acerca do assunto. Vimos que era de extrema necessidade se falar sobre esse tipo de abuso, que, apesar de corriqueiro, ninguém ousava abordar”, explica o grupo, em entrevista à reportagem.

A página foi criada no mês passado e já conquistou mais de 7 mil seguidores. Até a publicação desta reportagem, haviam sido divulgados relatos de meninas da Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará, Pará, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Mato Grosso, Santa Catarina e Paraná.

Mas a sensação de insegurança em ambiente escolar não é uma realidade apenas brasileira. Um dos casos relatados na página aconteceu em Paris. A vítima conta que tinha 14 anos quando foi morar na capital francesa com a mãe. Ela foi estuprada por um casal de professores de Filosofia.

Adolescente revela ter sido estuprada por dois professores em Paris

Foto: Adolescente revela ter sido estuprada por dois professores em Paris
Créditos: Reprodução

“Denunciei à diretoria, outras meninas que passaram pelo
mesmo também, mas terminou sem dar muito efeito. Ela acabou lançando um livro e
continuou falando sobre liberdade feminina ao mesmo tempo em que aliciava
jovens garotas para bacanais pedófilos por aí”, diz a garota, no fim da mensagem enviada à página.

Todas as vítimas têm a identidade preservada pelas moderadoras da comunidade, que também preferem manter-se no anonimato. As histórias podem ser enviadas por meio da plataforma online Google Forms ou mensagem na página.

As criadoras do ‘Eu tinha um professor que’ têm entre 17 e 20 anos e revelam que já passaram por situações de abuso sexual em escolas. Para elas, a resistência das instituições de ensino em tratar o tema contribui para que as vítimas hesitem em denunciar os agressores. Por causa disso, o grupo ainda se sente inseguro em ultrapassar o meio virtual e fazer campanhas diretamente em escolas. “Já pensamos em sair do anonimato, mas isso poderia ser um risco para nós. As escolas nos veem como algo que pode acabar com a reputação da instituição, ao invés de um grupo de apoio para meninas abusadas”.

A vista grossa que as escolas fazem diante de abusos cometidos por professores é denunciada na página. “Eu fui na pedagoga do colégio e ela disse que se falasse algo para o diretor poderia acabar com o casamento dele. Como se isso fosse o mais importante”, diz uma paranaense, assediada aos 15 anos por um professor.

A coordenadora
executiva do Cunhã Coletivo Feminista, Cristina Lima, considera que a recusa em
ajudar as vítimas é reflexo da cultura do machismo na qual a sociedade foi
estruturada. Ela ressalta que é comum as pessoas duvidarem da palavra das
mulheres, pois existe um pensamento de que os homens são superiores e têm
direito de posse sobre os corpos femininos. Por esse mesmo motivo, as
manifestações de resistência às “investidas” do agressor são mal compreendidas.
É como se homens detivessem poder sobre as escolhas das mulheres.

“É muito cruel o que se faz com essas meninas. Elas passam um tempo tentando tomar coragem de denunciar o assediador e quando isso acontece não encontram apoio. As pessoas duvidam, acham que elas estão fantasiando, preferem acreditar no professor ou colocam outras questões como o casamento dele em primeiro lugar. Tudo isso acontece porque a sociedade não considera a palavra da mulher como definitiva e prefere pensar: ‘Quem é essa menina para macular a imagem de um homem, de um educador’?”, observa.

Ao ser denunciado, professor disse que era a vítima quem
Foto: Ao ser denunciado, professor disse que era a vítima quem “insinuava coisas”
Créditos: Reprodução

Cristina Lima também destaca que essa postura da sociedade faz com que as meninas tenham medo de denunciar os agressores. “Elas ficam receosas. Muitas vezes porque não entendem o que está acontecendo, já que os primeiros abusos ocorrem ainda na infância. Mas, mesmo depois de compreender o que se passou, as vítimas ficam com vergonha de denunciar, com medo do que as pessoas vão pensar e chegam até a questionar se foram elas próprias quem causaram aquela situação, pois a sociedade dita uma série de comportamentos que mulheres devem ter para evitar assédios. Vivemos numa sociedade que culpa a vítima e minimiza as atitudes e responsabilidades do agressor. Essa injustiça deixa marcas para a vida toda da vítima”, ressalta. 

Vítima teve medo de denunciar abuso e ficar exposta a comentários maldosos

Foto: Vítima teve medo de denunciar abuso e ficar exposta a comentários maldosos
Créditos: Reprodução

O Estatuto da Criança e do Adolescente (Eca) prevê multa para as instituições ou profissionais de Educação que se negarem a ajudar menores de idade a denunciar qualquer tipo de violência. As crianças e adolescentes que forem vítimas de abusos também podem procurar diretamente o Conselho Tutelar ou a polícia. 

Para a coordenadora do Cunhã Coletivo Feminista, a página ‘Eu tinha um professor que’ é um ótimo meio de empoderamento das mulheres. “Essa iniciativa é muito importante para que as pessoas saibam que abusos sexuais nas escolas é comum. As meninas precisam se sentir encorajadas a denunciar os crimes porque só assim vamos conseguir acabar com o assédio”, conclui Cristina Lima. 

Veja na galeria abaixo mais relatos de assédio sexual sofridos em instituições de ensino:

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your name here
Please enter your comment!

Notícias mais lidas