Patriotismo e punição

Contarei as experiências que vivi nesta segunda viagem em uma série de artigos

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Há um ano, fiz a primeira pausa em mais de meia década e fui reativar meus neurônios nos Estados Unidos, experiência que jamais deixarei de repetir sequencialmente.

“Ninguém se perde na volta”, dizia José Américo de Almeida, com absoluta razão. A segunda viagem foi ainda melhor.

Na primeira, então aos 70 anos de idade, retornei à sala de aula para aprender em um novo idioma, tendo como colegas pessoas de três continentes e culturas distintas.

Encarei o desafio de uma rotina completamente diferente da que é normal para mim: ter que fazer a cama, preparar o café, lavar a louça e chegar à escola pontualmente. E aproveitei a vida cultural de Nova York.

Contarei as experiências que vivi nesta segunda viagem em uma série de artigos. Por um período – e já peço desculpas – vou tratar de temas aparentemente pessoais, mas que servirão para compartilhar com os leitores, fatos que favorecem uma melhor compreensão do mundo e das nossas possibilidades.

O sacrifício de ler esses artigos deve ser semelhante ao de assistir, no apartamento de um amigo, a uma sessão de fotos de viagem do anfitrião. Para mim funciona como sonífero. Na 10ª foto já estou cochilando. Torço para que meus leitores não durmam.

É um desafio passar mais de 30 dias longe do meu cotidiano, sem falar do rigoroso e competitivo sistema educacional americano. Para vocês terem uma ideia, o professor faz chamada nominal duas vezes ao dia, para conferir presenças. O “homework” – tem dever de casa, sim – é em dose cavalar. E no dia seguinte, presta contas.

O americano é competitivo e não tem boquinha. Você é constantemente cobrado, mesmo que não precise passar por testes de avaliação por não estar atrás de um certificado.

A cultura americana tem um DNA comportamental que difere da latina. E quem migra para os EUA – como estudante ou residente, e mesmo turista -, passa a seguir as regras da casa, seja na obediência à uma simples fila em show até às duras leis penais.

No interior dos taxis tem alerta escrito: assaltar um motorista leva a pena mínima de 25 anos de prisão, sem direito a liberdade condicional. E ninguém duvida, pois o sistema funciona.

Os antiamericanos que me perdoem, mas é impossível não perceber, e até invejar, o orgulho deles com os símbolos do País. A bandeira está em todo lugar – carros dos Bombeiros, ambulâncias, prédios…

No Brasil, se um passar com uma bandeira nacional, alguém logo perguntará se é dia de jogo da seleção.

Nos EUA o debate é como gerar mais riquezas e empregos. No Brasil de 13,3 milhões de desempregados, é sobre a queda de braço gigantesca entre Poderes que discutem se um – no caso o Judiciário – pode punir um senador acusado em esquema de corrupção, sem afrontar o outro – o Legislativo -, com quase 1/3 de seus membros sob investigação.

Que esses Poderes priorizem isso, já é difícil de aceitar. Incompreensível é a nação não se rebelar.

Ao contrário dos EUA, aqui falta patriotismo. Falo do compromisso de fazer o que é bom pelo país, de defender valores que garantam o bem-estar da coletividade.

Lá os julgamentos são sumários, rápidos. Se um motorista bater em um carro alcoolizado e for reincidente, não tem apelação, é preso. Aqui, atropela e mata um policial e tem a regalia de responder em liberdade.

Nunca é ‘quem fez’, mas ‘o que fez’ que importa no sistema americano. No brasileiro, ‘quem’ faz toda diferença. Infelizmente.

Eu fui lá para me reciclar, para ativar meus neurônios. Com eles lubrificados, comparo ‘nós’ e ‘eles’ e chego a conclusão que a receita para colocar o Brasil nos trilhos é simples: patriotismo e punição.

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