Reflex?es

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Vou direto ao ponto. Ultimamente tenho insistentemente me perguntado: será que sou um bom avô?

Será que, quando já não mais existir, serei amorosa e saudosamente lembrado por meus netos e netas?

Quem acompanha aqui minhas impressões, reminiscências e inquietudes, sabe que não sou de tergiversar. Evasiva não é minha praia.

Portanto, também não tentarei eufemizar sobre a resposta que tem – com a mesma insistência – aparecido diante dos questionamentos.

E ela é não.

Não tenho conseguido ser o avô que gostaria.

Não me encaixo, com certeza, no modelo “avozão”.

Avôs dão colo, pegam pelas mãos e levam para aventuras. E podem fazer isso porque, evidentemente, abriram esse espaço em suas vidas cotidianas.

Enquanto isso, na cozinha, avós preparam as guloseimas preferidas dos netos- iguarias tão saborosas que serão lembradas por toda a vida, mesmo que você possa frequentar as cozinhas dos melhores chefs.

Com algumas variações, são esses os modelos que rondam corações e mentes sobre essa dupla que tem o amor incondicional de pai e mãe, só que com mais tempo para demonstrá-lo e com a temperança que só o tempo é capaz de dotar para enfrentar a impetuosidade das crianças.

Quem não tem uma boa lembrança – de passeios ou quitutes – com os avós?

Eu. Nenhuma. Zero.

Não tive o dengo da avó. Não me aventurei por aí com meu avô. Simplesmente porque, quando nasci, eles já não mais existiam. E arrasto vida afora saudade do que nunca tive.

Em minhas reflexões, essas ausências fazem diferença. Pois não ter sido neto me deixou, como herança, a tristeza profunda que me move nessa tentativa de ser melhor avô sem, na verdade, saber como sê-lo.

Pode parecer desculpa (e é), mas a verdade é que minha dificuldade em ser avô advém realmente do fato de nunca ter sido neto.

Pessoas costumam se orientar por exemplos. Aprendem, pelo mimetismo, a se posicionarem como filho, pai, avô.

Sempre soube me posicionar como filho (e a presença marcante do Doutor René certamente fez um bom trabalho nesse sentido). Também tenho procurado – a despeito das ausências – ser um bom pai. A relação amorosa e cúmplice; as realizações pessoais e profissionais dos meus filhos atestam essa minha crença.

Mas e a turminha que compõe minha terceira geração, será que herdará essa cumplicidade e amorosidade?

Será que sentirá minha falta ou a ausência justificará a indiferença que estou antevendo?

Não sou exatamente um estranho para meus netos e netas. Eles sabem (ou devem saber) que estou aqui para tudo o que precisarem. E respondem a isso com manifestações de carinho.

Mas o meu colo não é tão constante como gostaria. Nem o aconchego do abraço, onde se instala a intimidade, está presente na rotina do dia a dia.

Esses pequenos, que crescem tanto e tão vertiginosamente, estão sempre no meu coração. Mas as mãos desse avô, sempre tão ocupadas, não os alcançam.

Espero que, a meia distância, deixe o legado de um homem trabalhador.

E de um avô que, mesmo sem saber sê-lo, passou boa parte de sua vida tentando, ardorosamente, fazer o seu melhor.

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