Ressaca de Carnaval

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Sou pernambucano, folião, carnavalesco – um legítimo representante da capital do frevo.

Paixão cultural que arrestei até as ruas de João Pessoa, tantas vezes embalado pelas Muriçocas – ora exibindo; ora camuflando meu espírito de folião (como naquela vez que, por motivos inconfessáveis, atravessei a avenida Epitácio Pessoa incólume debaixo de uma fantasia de alma nada penada).

A cultura do Carnaval permanece aqui, intacta, mesmo que o corpo se queixe das coreografias dos hinos dos mestres Capiba e Fuba.

Mas não são os músculos, e sim o bom senso, que me faz defender que não podemos – neste instante republicano – ficar olhando a banda passar.

Não podemos nos deixar enganar pela cultura carnavalesca!

O País que deveria estar de corpo, alma e coração trabalhando para emergir das cinzas recessivas não podia ter paralisado por quase quinze dias enquanto corria atrás do primeiro trio elétrico que passasse nas avenidas do Brasil.

Entre prévias, imprensados e Carnaval, os brasileiros passaram duas semanas marcando o passo do frevo e o descompasso do trabalho.

É muito tempo; muita inércia para uma nação que sofreu encolhimento de 3,6% do seu PIB no ano passado, mergulhando na pior crise recessiva de sua história recente.

Vejo claramente que essa paralisia é orquestrada para que o País não dê certo. Pois há muitos carnavais o País fomenta a cultura do ócio.

Ou não é a configuração de indolência institucional os decretos de pontos facultativos nas repartições públicas antes e depois de desfiles de blocos?

Nem quando termina a folia, o trabalho retorna.

Supostamente voltamos ao batente na quarta-feira de cinzas. Psicologicamente, porém, imprensamos a quinta e a sexta para prolongar o embalo no fim de semana.

Voltamos aos blocos; voltamos aos retiros; às viagens. Menos ao trabalho.

Quantos pacotes turísticos são vendidos nesta época, extensivos até o domingo pós-festejos de Momo?

Eu mesmo – confesso – já me beneficiei.

Nunca, porém, essa folia prolongada foi tão contraindicada.

Qual a lógica em permitir este desfrute quando 12 milhões de brasileiros seguem sem seus empregos, o poder de compra continua minguado e a economia permanece emitindo sinais fracos de recuperação?

Me perdoem os pierrots e colombinas, mas temos uma nação para reconstruir.

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