Virei criança

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Contei nos dedos.

E até fiz contagem regressiva oficial – assinalada a caneta, dia após dia, no canto mais destacado da minha inseparável agenda – a espera da sexta-feira 5, dia de meu aniversário.

Razões para essa expectativa toda?

Todas!

Mas a principal delas é a vontade de festejar esses abençoados 71 anos de vida.

Uma disposição que me faz voltar a ser criança – quando os aniversários eram igualmente aguardados com ansiedade pelos melhores motivos: degustar o bolo, convidar os amigos, receber presentes, ser especialmente afagado pela família.

Verdade que, no meu caso, tinha um ingrediente a mais: a bendita chuva.

E, para meu desespero de menino, ela sempre aparecia.

Costumo brincar com os amigos que o 5 de maio, para ser legítimo, tem que chover.

Portanto, se a fazenda de um amigo está com pasto seco, basta me convidar para garantir irrigação farta. No meu dia o céu desaba. É tradição.

Mas o que hoje é benção era uma agonia no Recife da década de 40, no afastado bairro de Boa Viagem, ligado a cidade por uma ponte de mão dupla.

Resultado: os amigos não apareciam. Nem os presentes.

Lembro de alguns aniversários que foram verdadeiros fiascos, com as mesas vazias e os docinhos intocados nas caixinhas de madeira de queijo catupiri, que minha tia reciclava e decorava com esmero.

Nada disso, porém, arrefecia a doida alegria que me invadia na medida em que o 5 de maio se aproximava.

Era o meu dia e tinha festa – simples assim!

A maioria de nós sabe que esse entendimento embaralha e complica na progressão dos aniversários.

O que era festivo na infância e adolescência vira preocupação dos 30 aos 50.

O temor do envelhecimento e o peso da finitude substituem – imagine que bobagem – o bem maior que é estar vivo.

Felizmente voltamos a olhar a coisa pela perspectiva certa depois que as rugas já não mais importam.

Quando ultrapassamos a barreira dos 50, voltamos a nos sentir crianças – readquirindo a inteligência emocional perdida; experimentando outra vez a extraordinária sabedoria instintiva que existia na infância; sabendo reconhecer o que realmente importa.

Porque nesta etapa do jogo a gente já sabe, com convicção plena, que viver é bom – novo ou velho.

E é por isso que quero viver mais; celebrar mais aniversários; realizar infinitas contagens regressivas.

Se depender de mim (e sei que, em larga medida, depende sim) estou mais que disposto a quebrar o recorde de longevidade da família – que, aliás, não é lá muito ambicioso, pois nem pai nem mãe nem minha irmã conseguiram emplacar 80 anos.

Se Deus permitir, quero ir muito além dessa marca.

Por isso escolhi um outro alvo; uma referência, que tem nome e sobrenome:
O fundador do Jornal Correio, Teotônio Neto, o homem que aparece sereno em foto que me enviou esta semana de seu apartamento no Rio de Janeiro.

Na fotografia ele está sentado à mesa, comendo pão, tomando café e lendo os jornais impressos – aguardando com lucidez e dignidade a chegada de seu centenário.

Aos 98 anos, Teotônio pode confirmar – com certeza ainda mais consistente, irrevogável e sem margem de erro – o que eu descobri aos 70:
Viver é realmente muito bom.

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