Como sabem aqueles que me acompanham e conhecem a minha trajetória, nasci em 12 de junho de 1952. Tenho, portanto, 62 anos e, embora não me veja assim – a minha idade cronológica não bate com o meu estado de espírito – posso ser considerado um senhor de idade provecta, com direito a fila preferencial nos bancos e atendimento prioritário nos órgãos e serviços públicos, pequenos privilégios conferidos por Lei às pessoas idosas.
Seria natural, portanto, que nesta altura do campeonato, já tivesse aposentado as minhas recordações de criança, que corria pelas ladeiras do Humaitá, no Rio de Janeiro, que brincava de pique bandeira na rua Cesário Alvim, que colhia mangas e jambos das árvores e que andava de bicicleta pelas ruas do bairro com a alegria de quem descobre o mundo.
É impressionante, porém, como essas lembranças se mantém vivas na memória, desafiando o tempo e o espaço, como se guardadas no HD de um computador, armazenando não apenas as imagens, como os sons, as emoções e os sentimentos que viriam a forjar a minha personalidade adulta.
Ainda esta semana voltei ao Rio de Janeiro onde fui lançar o meu livro Na Janela da Cidade, numa noite de autógrafos que reuniu também trabalhos dos meus colegas Gerardo Rabelo e Wills Leal na Associação Comercial, um prédio centenário localizado na rua da Candelária, tradicional endereço carioca.
Uma festa que reuniu, além da colônia paraibana radicada na Cidade Maravilhosa, muitos amigos que freqüentavam a casa da Cesário Alvim 27 e comigo compartilharam aqueles anos dourados que se eternizaram em nossas mentes e em nossos corações.
De repente, lá estávamos nós conversando sobre histórias que se passaram há mais de cinqüenta anos como se tivessem acontecido agora, com se fôssemos aquelas mesmas crianças que cresceram juntas dividindo o mesmo espaço, jogando bola no meio da rua e descobrindo a vida.
Constatei ali que a minha infância não passou e nem vai passar. Que ainda sou o mesmo menino inquieto e desafiador, que fabricava o meu próprio carrinho de rolimã para conhecer novas aventuras. E que aquele sentimento intenso que ainda me envolve ao entrar naquela rua vai permanecer assim, intacto, até que minha alma se eleve ao encontro do Criador.