Completam-se hoje dez dias da morte da Anita Ekberg, sueca que tornou-se um ícone quando, convidada pelo mestre Federico Fellini, viveu a atriz Sylvia no filme “A doce vida”, ao lado de Marcello Mastroianni. Grande sucesso de público e crítica, o filme de Fellini, realizado em 1960, em João Pessoa foi exibido duas semanas seguidas no Cine Plaza. Na época, raros filmes conseguiam esse período em cartaz na cidade. Em sua trilha sonora, assinada por Nino Rota, um mambo espetacular de Perez Prado, “Patricia”, também se tornou sucesso nacional (nos anos 60 e 70, o cinema fazia com que algumas músicas instrumentais tocassem no rádio tanto quanto as cantadas; um grande exemplo é o tema de “Se meu apartamento falasse”, obra-prima de Billy Wilder)
O Plaza ficava na esquina do Ponto de Cem Réis com a Visconde de Pelotas, onde hoje é uma sapataria, cujos proprietários não mudaram a bela fachada do cinema. Também no Ponto de Cem Réis, o Parahyba Palace Hotel, cuja sobreloja na entrada era ocupada pelo Havaí. Era um bar que ficou famoso por receber todas as noites (exceto aos domingos) as gerações beatnik e existencialista da cidade. A vanguarda da cultura, enfim. Eu tinha apenas 17 anos, mas já marcava ponto no Havaí, ao lado de Marcus Vinícius de Andrade, Hugo Caldas e seu irmão Manfredo, Marcos Tavares, Guy Joseph, Marcos dos Anjos, Maria Auristela, Carminha Moura, outros, outras. Quando a música não era do toca-discos, meu irmão Fernando Aranha tocava piano com um repertório bem diversificado.
Vale lembrar que ainda existia o bonde, que fazia a curva de retorno a Tambiá em frente ao Parahyba Palace, o Café Alvear, a Sorveteria Canadá (a partir de 5 da tarde, nada de sorvete, mas muita cerveja e conversas com Virgínius da Gama e Melo, Elzo Franca, os irmãos Ipojuca e Paulo Pontes, entre outros).
Numa noite de sexta-feira (me lembro bem), às 10 horas o Havaí já estava cheio e o Plaza exibia a última sessão de “A doce vida”. Todos nós tínhamos visto o filme. De repente, a saudosa escritora e jornalista Maria José Limeira (com quem cheguei a namorar durante um curto tempo) pediu ao rapaz do bar para colocar o disco com Perez Prado e “Patricia”. Como se estivéssemos na “doce vida tropical”, Maria José deitou no centro do Havaí, mostrou os seios e ao seu redor todos ficaram dançando. Maria transformou-se em nossa Anita. Saudades.