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Apesar de ?cabe?as feitas?

Eu era um garotão de 20 anos e freqüentador quase diário do bar Califórnia, em frente ao Cine Paissandu, no Botafogo. Já estava totalmente enturmado. Conhecia a todos e todos me conheciam. Devo confessar que não me sentia mais paraibano. O espírito carioca tinha tomado conta de minha cabeça. Gostava de sentar numa mesa de onde podia ver, à grande distância, o Cristo Redentor.

Em agosto de 1966, fui assistir “O demônio das onze horas” (“Pierrot le fou”), de Jean-Luc Godard, numa sessão que o Paissandu promovia às meias-noites das sextas- feiras. Como abertura, foi programado um documentário sobre Maria Bethânia feito por Júlio Bressane: “Bethânia bem de perto”.

Bressane fez o filme sem a irmã de Caetano ser bem conhecida no Rio de Janeiro, onde ela era praticamente recém-chegada. Foi para substituir Nara Leão no musical “Opinião”, em cartaz no teatro de mesmo nome, no Bairro do Peixoto (enclave de Copacabana), ao lado de Zé Kéti e João do Vale. Nosso saudoso Paulo Pontes era um dos três autores e diretores do show. Foi lá que Bethânia começou a cantar o que seria seu primeiro sucesso nacional: “Carcará”.

O Paissandu estava lotado, como sempre acontecia quando estreava qualquer filme de Godard. Começou a sessão. Preciso lembrar que Bethânia era desconhecida por quase todos os espectadores do cinema. Alguns tinham “ouvido falar” dela. Apesar de “cabeças feitas”, as pessoas estranharam as roupas, a androginia e a voz rascante de Bethânia. Com pouco mais da metade do documentário, quando ela cantou “Este seu olhar”, de Tom Jobim, a platéia desandou numa vaia enorme. De repente, um rapaz – que estava mais ou menos na terceira fila – levantou-se, olhou para trás e gritou: “Calem-se, calem-se, burros, imbecis! Maria Bethânia é gênio! Bethânia é gênio, idiotas!”. Era Caetano Veloso, que também ainda não fazia sucesso; faltava um ano para “Alegria, alegria”. Foi retirado no escuro aos sopapos, trancos e barrancos. As vaias aumentaram e ao longo dos meses o documentário de Bressane foi esquecido nas rodas de cinéfilos.

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