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Capacidade de indigna?

Desde a época de Maurício de Nassau que o nordestino – entre os quais eu – vem se acostumando a ver boi voar na política. Nunca, porém, a boiada decolou com tanta constância nem alçou voos tão altos.

São tantos bovinos indo e vindo que, tenho certeza, estas minhas considerações – escritas nesta sexta-feira cheia de tensões políticas – já estão defasadas neste domingo de convenções partidárias.

Tudo muda o tempo todo. E de forma vertiginosa.

As edições dos jornais se sucedem com fotos e detalhes de acordos políticos que, horas depois, deixam de existir.

Candidaturas afloram e submergem. E coligações inimagináveis anos atrás, meses atrás, dias atrás, minutos atrás, surgem subitamente neste céu congestionado.

Trombadas de arrobas aéreas aterrissam em massas eleitorais chocadas.

Pois a nós cabe apenas o papel de expectadores – voyeurs subestimados em um processo que só ocorre porque eles se convenceram de que os eleitores têm capacidade muito limitada de avaliar o que se decide nos olimpos políticos.

Ouço incautos ainda a questionar: “será que a classe política não está dimensionando o poder de percepção dos eleitores?”

A resposta – monossilábica e direta – é simplesmente não. Não mesmo.

Dentro das agremiações partidárias, não há mais vida que acredite em voto consciente.

Se acreditassem, não seriam tão explícitos em suas negociações capitaneadas pela lógica do pragmatismo pessoal, por mim citados em artigo recente.

Mas pragmatismo tem limite.

Existe uma afirmativa de que, ao longo da vida, estamos suscetíveis a perda de muitos valores. Nunca, porém, da capacidade de indignação.

E muitos estão indignados com a volúpia descarada com que se negociam interesses particulares e momentâneos – movimentações que se limitam às circunferências dos umbigos da politicada.

Será que não sabem que, agindo assim, promovem desrespeito escancarado às idéias e ideais que deveriam comungar? Ou que, pelo menos, têm a obrigação de nos fazer acreditar?

Descerraram as cortinas do teatro político. E entraram em cena com canastrices incapazes de parecer críveis até ao mais inocente expectador.

Urna após urna, o jogo fica mais explícito e mais pessoal. E não há o menor temor de que, nas urnas de 2014, os estratagemas sejam desmascarados.

Mas será que não estão esquecendo de combinar com o povo?

Em tempos de Copa do Mundo de Futebol, um personagem emblemático dos gramados brasileiros alertou, no torneiro de 1958, na Suécia, o quanto essa combinação é importante e estratégica.

Reza a lenda que Garrincha ouvia atentamente o técnico da Seleção Brasileira na época, Vicente Feola, sobre o que deveria ser feito para ganhar a partida contra a União Soviética. Os russos tinham uma das melhores seleções na época e todos sabiam como o jogo seria duro.

Feola disse a um atento Garrincha: “Seguinte: você pega a bola e dribla o primeiro beque. Quando chegar ao segundo, você dribla também. Aí vai até a linha de fundo, cruza forte pra trás, para o Vavá marcar”.

Garrincha, calado enquanto o técnico passava as instruções, finamente falou, expondo a presença de espírito que o faria famoso também fora dos gramados: “Tudo bem, Feola, mas o senhor já combinou com os russos?”

Aos Feolas pragmáticos, que acham que já ganharam as arquibancadas apesar dos dribles nas ideologias, reitero Garrincha:

Já combinaram com os eleitores?

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