Deus deu ao homem dois ouvidos, dois olhos e uma boca para vermos e ouvirmos mais do que falamos.
O provérbio oriental sinaliza, de forma clara e ilustrativa, a proporcionalidade física do ouvir e do falar. E embute, em sua alegoria, uma sabedoria testada e confirmada por uma cultura milenar.
Não sou tão antigo, mas também confirmei ao longo da vida a perfeita proporção que o Criador imprimiu em suas criaturas – se a maioria de nós ignora essa matemática orgânica é por capricho de um arbítrio inconsequente.
Ou simplesmente porque fala de mais – o bastante para não ouvir estas e outras verdades.
Eu, por meu turno, intuí por conta própria (e por hábitos cultivados no Derby, em Recife) a mensagem óbvia contida nesta proporção – um aprendizado que vem da mais tenra infância, nas longas noites em que adormecia sobre a mesa de jantar ouvindo conversas de adultos.
Na medida em que fui amadurecendo, aprimorei esse procedimento. Ouvir, definitivamente, me enriquece.
E não estou só. Conheço um grande empresário pernambucano que é ainda mais profissional na arte do ouvir do que eu. Esta é, sem duvida, sua marca registrada.
Aos que se aproximam dele, o roteiro se repete:
– Como vão as coisas?
Você escolhe o tema. E determina a extensão da narrativa – longa ou curta, interessante ou nem tanto, uma coisa é certa: seu interlocutor terá um par de ouvidos atentos.
Ciente de sua estratégia – e também determinado a fazê-lo falar mais do que ouvir – nossos encontros são sempre iniciados com uma ruidosa disputa: como cowboys de filmes de bang-bang, competimos pela primazia de sacar, e disparar mais rápido, o petardo:
– Como vão as coisas?
As vezes ganho. E me congratulo pela oportunidade de ouvi-lo. Quem tanto escuta, como ele, sempre tem algo valioso para contar.
Também gosto, claro, do exercício da expressão.
Falo bastante. Sempre. Especialmente nas diversas reuniões de classe que integro. Emitir opinião, colaborar com experiências e vivências não é só um prazer, mas um dever.
Porém, o que enriquece mesmo meus neurônios é o ouvir. É absorver a fala do outro, independente do conteúdo – pode ser uma prosa técnica; pode ser focada nas vicissitudes da vida ou uma simples, e nem sempre verossímil, história de pescador.
Tudo absorvo com prazer. Somando conhecimentos, adicionando sabedorias, dividindo experiências.
Como é fantástico ouvir alguém inteligente defendendo seus pontos de vistas! Mesmo aqueles com os quais você não concorda, de uma coisa tenha absoluta certeza: sempre será enriquecedor.
Pois certamente sobrará algum percentual do conteúdo que somará e ajustará idéias e conhecimentos pré-concebidos.
Tenho, claro, meus limites.
Não tolero, por exemplo, conversas de bêbados.
E tenho me especializado – nestes tempos em que o volante me impõe a chata sobriedade – em escapar discretamente desse papo molhado e descoordenado.
Este é, digamos, um procedimento que tem se agigantado. Culpa, claro, da Lei Seca.
Como dirijo e não bebo nada, sou sempre o sóbrio da festa desviando, em rápidas manobras, das confusas conversas etílicas.
Voltando ao sério, reforço a importância do exercício de ouvir – muito além do que supõe o senso comum.
E quando falo na capacidade de ouvir, me refiro a um procedimento comportamental. Traduzindo, é disciplina mesmo!
Um exercício que implica em tolher o ego e aparar a arrogância.
A humildade – sempre tão sapiente – revelará aos ouvidos uma produtiva e estratégica convicção:
A operação da fala é a divisão. A do ouvir é a adição.
Ouça. Some.