Ainda era garoto quando ganhei os anéis que ornaram as mãos de três gerações de médicos da família Ribeiro – meu bisavô, avô e meu pai. O presente – que guardo até hoje com muito carinho – tinha objetivo claro: influenciar o jovem Roberto a dar sequência ao dom familiar pela medicina.
Ao longo de toda minha carreira escolar, fui estimulado a aumentar a coleção de anéis da família – desde, claro, que a pedra fosse verde.
Mas às vésperas do vestibular, decidi interromper essa saga médica. Pois entendi que minha vocação estava em outro lugar, bem longe das seringas e bisturis.
Àquela altura da minha vida, vislumbrei com muita clareza que queria enveredar pelo universo empresarial.
Meu pai, bom psiquiatra que era, entendeu e respeitou minha “loucura”.
Colocou, porém, uma condição – uma única e inegociável condição: eu teria que me preparar para ser empresário.
Não me deixaria enveredar por esse caminho com improvisos nem atalhos. E, de muito perto, acompanhou minha formação como economista.
Pós universidade, proporcionou – graças às muitas amizades que tinha em Recife – estágios em graNdes escritórios e organizações. Experiências que, de fato, me prepararam para a missão espinhosa que teria pela frente.
Eu fui, de fato, preparado para ser um empresário.
E é por isso que assisto, entre constrangido e desgostoso, o surgimento (e proliferação) desse novo personagem que invade o metiê empresarial: o político profissional. Ou melhor: o empresário charlatão.
Gente que, usando a política, se beneficia de toda a sorte de oportunidades que surgem na esteira desse jogo – dominado pelo toma lá, dá cá.
Esta nova modalidade de falso empresário chega ao extremo de faturar, em benefício próprio, frações de segundos do Guia Eleitoral – e estamos falando de verdadeiras fortunas, angariadas a partir da apropriação de siglas partidárias.
Claro que as negociações com dividendos sempre existiram nos bastidores da política. Entravam neste “escambo” emendas e lobbies por projetos, por exemplo – tão corriqueiros que se tornaram praticamente inerentes ao processo político.
O que assistimos hoje, porém, é uma mercantilização sem precedentes dos partidos – acertos feitos de cara lavada, a céu aberto. Enterram a sutileza, sepultaram o pudor.
E instalaram a saudade no peito de gente que viveu o espinhoso – mas produtivo e feliz – tempo em que o sonho de ser empresário passava, necessariamente, pelo labor de uma preparação profissional séria e ética.