Não fique com água na boca. Essa caranguejada não tem relação com o banquete nordestino.
Tem relação, isto sim, com o que acontece antes dos temperos banharem um dos crustáceos mais apreciados na mesa do paraibano.
Exatamente naquele instante em que os bichos são soltos em uma panela e iniciam uma luta pela sobrevivência, quase sempre abortada pelos próprios caranguejos.
Você já deve ter visto a cena: os caranguejos se amontoam, sobem uns em cima dos outros, formam uma espécie de escada (ou corda, como queiram) e quando algum deles alcança a borda da panela, prestes a conquistar a liberdade, o inesperado acontece…
Bah! Um dos caranguejos derruba a corda e todos voltam ao fundo da panela.
O epílogo a gente conhece: a disputa fratricida provoca a morte de todos.
A alegoria da caranguejada fazia parte do folclore político pernambucano na minha infância. Já naquela época, o anedotário tratava a disputa política com essa tônica kamikaze.
Os caranguejos políticos de Pernambuco, à época, não permitiam que seus parceiros políticos alcançassem o sucesso. Quem se sobressaia, era derrubado.
Passados tantos anos, a caranguejada continua integrando o cardápio político – especialmente na Paraíba.
Aqui – possivelmente mais do que alhures – o comportamento se repete com constância assustadora.
O caranguejo da vez – o deputado federal Manoel Júnior – sabe agora, com conhecimento de causa, o que é ser o alvo da caranguejada.
Será que ele sobreviveu as patadas quando este artigo estiver publicado nas páginas do Jornal Correio? Ou terá sucumbido?
De antemão, peço desculpas se os fatos estiverem defasados em sua temporalidade, pois enquanto escrevia, concomitantemente assistia a presidente Dilma demitir (por telefone, em ligação curta e objetiva, o então titular da Saúde, Arthur Chioro).
Também quero deixar claro que não estou aqui saindo em defesa do amigo Manoel Júnior. Nem tenho, aliás, procuração para tanto.
Apenas lamento (e como lamento) assistir esses caranguejos em ação, derrubando a chance da Paraíba, através de um dos seus filhos, figurar no comando de uma das pastas mais estratégicas da União.
Lamento que a novela, tantas vezes reprisada, ganhe sempre novos capítulos – invariavelmente construídos por interesses mesquinhos, eleitoreiros e pessoais.
Trata-se, obviamente, de uma contenda paroquial.
O objetivo é minar o adversário das urnas, impedir que ele saia fortalecido em eleições futuras – uma pequenez que está na contramão, em verdadeira rota de colisão, com a largueza da população paraibana, que deseja sim (e como deseja) um paraibano no epicentro do poder.
A classe política, porém, não tem a mesma largura republicana do nosso povo. E mesmo aqueles que reconhecem que essa conquista representaria ganhos extraordinários para o Estado, o modus operandi não muda:
As patas entram em ação para derrubar a corda e trazer todos para o fundo do fosso em que nossos agentes políticos não cansam de mergulhar.
Arrastando, junto, toda a Paraíba.
Resultado?
Caranguejamos.
Sim, o verbo existe. E não poderia ter significado mais apropriado: “andar de um lado para o outro sem fazer nada; andar devagar”.
Não é exatamente isto o que a disputa política tem legado a Paraíba?
Um eterno vai e vem, lento e sem sentido, do nada para lugar nenhum!