Moeda: Clima: Marés:
Início Geral

Casa de M?e Joana

Desde que me entendo de gente, sou apaixonado por automóveis.

Uma relação de amor longeva e profunda que começou mais exatamente em 1949, quando meu pai retornou dos Estados Unidos com seu Ford 49, o famoso “Vaca Magra”.

Não sei o porquê do apelido. Tudo, naquele carrão, me despertava sentimentos robustos. E, a partir de então, passei a admirar – e zelar – pelos automóveis que viríamos a possuir.

Diferente do que ocorre hoje, automóveis não eram semidescartáveis na década de 50. Integravam o patrimônio da família e era compartilhado por todos os seus membros.

E isso era um privilégio para poucos.

Meu pai só viria a trocar seu Ford seis anos depois, trazendo para casa um Bel-air 55 da Chevrolet.

O amor se solidificou.

E cresceu ainda mais em uma viagem à Europa em 1967, a bordo de um Ford Cortina (equipado com a “novidade” do freio a disco nas rodas dianteiras).

Naquele sedan compacto percorremos mais de dez mil quilômetros – praticamente todo o velho continente, começando por Lisboa.

À época, a Europa modernizava suas rodovias, especialmente na Alemanha, onde surgiam as Autobahns – as autoestradas germânicas construídas com mão de obra portuguesa. Lembro claramente da alegre algazarra que a placa de Lisboa provocava nos operários, crentes de que se tratava de patrícios.

Mas o que estas memórias fazem aqui e onde vão nos levar?

Em 67, assim como no mês passado, quando rodei mais de mil quilômetros pelas vias vicinais da Toscana, Itália, não foram só os carros que me arrancaram olhares de admiração.

Curva após curva, reta após reta, as rodovias europeias tiram nosso fôlego.

São absolutamente impecáveis. Não se percebe uma única ondulação. E, nem por visualização, se encontra um buraco.

Eu falei em admiração? Pois traduza como inveja. E adicione revolta pela condição diametralmente oposta que encontramos nas estradas do nosso País – incluindo, aí, as que compõem a malha da região metropolitana de João Pessoa.

Nossas ruas se dividem em três graus. No primeiro aparece a inexistência da pavimentação. No segundo, danos, buracos e fragmentações que são, por vezes, piores do que a própria inexistência do asfalto. E, por fim, no grau três estão as pavimentações recuperadas sebosamente.

Os reparos são feitos de forma criminosa, com variação de materiais e desrespeito às especificações originais.

Não sem razão, nossos carros se desgastam a cada metro percorrido. O meu, que tento conservar há sete anos (ainda inspirado pelos ensinamentos do meu pai, o Doutor René), vem sofrendo penoso processo de dilapidação.

E, pelo menos até onde a vista alcança, não há a quem recorrer. No meio da rua, aparentemente, está estacionada a “casa da mãe Joana” – lugar onde todos mandam e ninguém tem razão.

O que vemos é o poder púbico conivente e omisso na manutenção de um bem construído a custas de nossos impostos.

Onde estão as regras de uso do asfalto nosso de cada dia?

Não existe multa para quem causa danos. Ou obrigatoriedade de autorização prévia, nem recomposições posteriores dentro das especificações, antes de se levar a termo interferências na malha.

Fica a dica aos nossos legisladores.

Pois como cidadãos onerados por uma das maiores cargas tributárias do mundo, precisamos tirar, diante de nossos paralamas, as crateras que engolem nossa cidadania.

Palavras Chave

Portal Correio
publicidade
© Copyright 2026. Portal Correio. Todos os direitos reservados.