Após muitos anos, retornei semana passada a Viena, cidade que reflete toda pujança do império austríaco. Em suas ruas erguem-se obras de extraordinária força arquitetônica – talvez as mais expressivas de toda a Europa.
Um caldeirão que mistura harmonicamente diferentes estilos, reflexo do passado grandioso de Viena e em especial do legado dos Habsburgos, de onde sobressai o reinado de Sua Alteza Imperial Maria Teresa, responsável por grandes transformações financeiras e educacionais enquanto, concomitantemente, criava prole formada por dezesseis filhos.
Percorrer os bairros vienenses – todos numerados, o que facilita enormemente a orientação dos visitantes – é revisitar o passado e, ao mesmo tempo, atestar a preocupação com a formação cultural das gerações presentes e futuras.
E esta é uma diretriz materializada na reverência à sua própria história.
Um passado bem contado, meticulosamente registrado e exuberantemente exibido em dezenas de museus.
Sim, você leu direito: estamos falando em dezenas de equipamentos dedicados a contar as façanhas do povo austríaco.
Pelas minhas contas, Viena concentra nada menos do que cem museus.
Retornando à minha João Pessoa, o choque do contraste:
Em Viena, cem museus. Aqui, sem museu algum.
E nunca um detalhe de grafia teve impacto tão grande e distinto sobre a realidade.
A reflexão é inevitável: por que nossa cidade não tem um único equipamento a reverenciar seu passado histórico?
Verdade que não temos a extensão milenar austríaca, mas a nossa história ocupa um dos mais antigos e consistentes capítulos da formação do novo continente, posto que a capital paraibana está entre as três mais antigas do País.
Em Viena, é comum assistir legiões de estudantes em visitação aos museus, acompanhadas por seus mestres, em exercícios complementares dos conteúdos ministrados em salas de aulas.
Aqui, esta é uma experiência impossível. Consequência? A escola não pode viabilizar esta extensão cultural. Nem podemos, como pais e avós, proporcionar aos filhos e netos este encontro com nossa própria história.
Na realidade, nossas ruas mostram – com exemplos tristes – a nossa desconexão histórica.
Nosso conjunto arquitetônico – que também se destaca em importância dentro dos exemplares sul-americanos – espreita séculos de desdém, titubeando entre o resistir histórico e a submissão à ruína.
Estão escorados em decretos que os reconhecem como patrimônios históricos do Brasil que, pragmaticamente, não embutem qualquer ação para conservá-los.
De um lado da calçada, uns poucos lamentam o desprezo. Do outro, um grupo torce para que esvaiam em nuvens
Nossa história nos escapa. Vira pó diante da nossa (grifando-se nesse pronome plural os gestores públicos) falta de reverência a importância do passado.
Que é, em ultima análise, uma sinalização da nossa falta de compromisso com o futuro.