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Professor Trindade

Você já imaginou encontrar numa mesma antologia poemas de João Trindade, Milton Marques Júnior, Lúcio Lins, José Antônio Assunção, Violeta Formiga e outros nomes?

Pois ela existe!

Trata-se da publicação mimeografada Calourada 77 (Caderno de Debate Arte), editada pelo Diretório Central dos Estudantes, da UFPB.

Como o próprio nome já diz, a calourada era uma recepção aos estudantes recém-ingressados na Universidade; nesse caso, os do período 77/1, da UFPB: uma salutar boas-vindas aos alunos que estavam chegando.

Eu entrara no curso de Direito; Lúcio Lins, também; Milton no curso de Letras, em 76/2. Mas havia até quem fosse do curso de Engenharia Elétrica: era o caso de José Antônio Assunção, que, na época, assinava apenas J. Assunção. Quanto a Violeta Formiga, não há informação sobre o curso.

Quem diria que eu e Milton, após os futuros embates nos cursinhos, fôssemos ser, muito mais tarde, confrades na Academia Paraibana de Letras?

Brindo o leitor com um poema meu (que mais tarde estaria no meu livro de estreia “Um Pouco Além do Sonho”); seguindo-se os de José Antônio Assunção, Lúcio Lins, Violeta Formiga e Milton Marques Júnior (o de Milton publiquei, por questões de espaço, apenas os trechos que considerei imprescindíveis).

INTERROGAÇÃO

               João Trindade

O que foi que houve entre nós,

que ninguém sabe, ninguém viu,

ninguém foi testemunha,

só eu vi e,

só tu viste;

mas, mesmo assim, eu calo

e tu o negas?

O que foi que existiu entre nós,

o que foi?

Um beijo, um abraço, uma carícia, um tocar de mãos?

Por que será que existe esta interrogação eterna em mim?:

(– Será que te lembras, será que esqueceste, será…

será… será…)

O que foi que o mar nos contou?

O mar nunca nos contou nada!

Nunca fomos ao mar!

Mas………………………. e a sala da tua casa?

e o mapa da tua rua?

e o mapa dos nossos corações?

E os nossos olhares, tão pretos e castanhos

tão parados, tão silentes

tão fora do mundo?

E o teu corpo, maldito corpo,

bendito corpo, que eu não esqueço?

E eu, como fico depois de tudo isso?

e a sala da tua casa,

e o mapa da tua rua

e o mapa dos nossos corações?

E, finalmente, como ficamos nós dois?

TOADA PARA UM SUICIDA

               João Antônio Assunção

Bom pai bom filho bom esposo.

Além de bom pai bom filho bom esposo,

excelente funcionário da Caixa Econômica Federal.

Um dia, – que ninguém percebeu o motivo –

abriu a janela do apartamento, e

jogou-se,

quatorze andares mundo abaixo

E os parentes, de quem era bom parente

E os amigos, de quem era o melhor amigo,

ficaram a repetir essa toada fria:

Bom pai bom filho bom esposo.

Além de bom pai bom filho bom moço,

excelente funcionário da Caixa.

SILÊNCIO AMBIENTE

               Lúcio Lins

1 – (no bar)

a vida exige

rasgar

rótulos de cerveja

mascando o idioma

no silêncio das mesas

o verbo espreme a ação

dos gritos engarrafados

que se engolem aos goles

do dia de cada dia amaro

a hora solicita

calar

nos calos da própria língua

enquanto insiste a verdade

em palavras ditas à míngua

tira gosto em prato fundo

alimenta o silêncio amargo

tombando o verbo – cair bêbado

com o seu grito engasgado

DEFINIÇÃO

               Violeta Formiga

O poema

é espelho que reflete

o tempo.

É a arma que se usa

na conjectura

na questão.

É a força maior

onde a vida

prossegue viva

na sua totalidade.

É caminho percorrido

em rostos esmagados

na impostura

dos fatos.

É plenitude traçada

congruente de inquietações.

É a seta que toma

o sentido exato

das linhas.

É tempo operário

ofício de construção.

PLURIPOEMA

(Excerto)

               Milton Marques Júnior

Passei a noite inteira

Tentando escrever uma poesia

E o que consegui

Foi apenas retardar meu sono

Ouvi o cri cri do grilo

O ping ping da torneira da pia

O barulho dos carros

Passando na rua molhada

Pela chuva rápida que caiu

Não escrevi um poema de amor…

(bocas e corpos unidos

Mãos que se agitam

Pernas entre pernas

E o grito espasmódico

Parado no ar…)

Não escrevi aquele de protesto…

(Está tão na moda!) (…)

Nem escrevi muito menos

o poema concreto…

(Discreto

Direto reto

Poema de teto

Sem veto…)

Não falei da noite escura

Nem da realidade dura

Nem do mal sem cura

Nem do chato que se atura

Nem que a secura

Se cura com água

E eu queria fazer uma poesia

Nem que fosse uma poesia estranha

Vinda das entranhas

Sem manhas

Uma poesia que zomba

E tomba

É isso:

Vou fazer um samba! (…)

Explodiu a bomba!

– mais um teste nuclear

Não, foi a bomba do Ibrahim

Essa bomba não mata

Nada retrata

Não trata

Nada relata

Maltrata e chateia

Como o diabo!

Eta cidadezinha chata!

Aqui também se morre de tédio

Não o tedium pluviae

De Carlos Drummond

Mas o próprio

Tedium vitae

Entre outras coisas

– Ei, e a poesia?

Fica para outra vez.

Foi ou não foi uma Antologia Visonária?

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