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Professor Trindade

            Não, não pense o leitor que mantive algum tipo de amizade com Roberto Carlos; claro que não!… Até mantive com outros cantores (quase)tão famosos quanto ele; mas, no tocante ao “rei”, sequer cheguei a assistir a qualquer show dele.

            Mas, então, qual a razão do título?

            Ora, Roberto fez inúmeras músicas com as quais me identifiquei e fizeram parte da minha vida e trajetória; inclusive, amorosa. E tais músicas, de alguma forma, foram “feitas” para mim; uma delas está até diretamente ligada a um episódio marcante e traumático do meu noivado, que, graças a Deus, terminou em final feliz.

            Abro o coração.

            Era o ano de 1978. Conheci uma moça, por quem me apaixonei, de imediato, a quem, sem dúvida, passei a amar no primeiro dia em que a vi. Sim, amores à primeira vista existem: meu coração é testemunha; essa moça é minha esposa. São 43 anos de vida juntos, entre namoro, noivado e casamento. Aliás, esses 43 anos foram completados dois dias antes da data que marcou os 80 anos de Roberto Carlos: 17 de abril.

            Estava no auge do noivado, quando ela, numa crise de ciúme, por causa de uma aluna (somos radicalmente ciumentos!), acabou.

            Enlouqueci. Fui a um restaurante famoso na época, o “Drive in” e “enchi a cara”. Não tinha vontade de voltar para casa; e o pior é que o restaurante ficava, de certa forma, próximo da casa dela. E a vontade de ir lá, gritar, implorar a volta. Mas como? Não dava. “Dar o braço a torcer” não fazia parte dos meus planos. Não, não era machismo; não era querer dar uma de forte, de “machão”. É que pensava assim: “Se ela acabou, é porque não quer mais; não posso prender quem não me quer mais… Acabou!”. Mas o “acabou” estava acabando comigo; e, como na famosacanção popular, quanto mais bebida eu tomava, mais ela crescia no sonho, no copo (na música, é taça) e no coração…

            Eu estava sozinho, até que chegou um professor do colégio onde eu e ela lecionávamos e começou a tentar me confortar…

            – Rapaz, vá pra casa… Acalme-se; isso deve ser passageiro. Depois as coisas se acertam.

            – Não saberei viver sem ela (eu dizia).

            E meu colega, tentando me acalmar:

            – Calma; ela volta. Se ela tiver de ser sua, será…

            – Clichês, meros clichês, eu retrucava. (E as lágrimas escorriam, abundantes, pela face).

            Para acabar de acertar, Roberto Carlos houvera lançado o habitual LP de fim de ano, que sempre “estourava” no ano seguinte, e eu roía com praticamente todas as músicas.

            Mas a que me fazia desabar mesmo no choro era esta:

Sem motivo vou vivendo por aí, por viver

Meus valores tão confusos, reprimidos por você

Troco passos sem sentido pelas ruas, sem saber aonde ir

E viver já nada mais significa, até já me esqueci

Volto para casa, onde eu procuro me esconder

De pessoas que acreditam meus problemasresolver

Mas eu insisto em cultivar sua presença, mesmo sem você saber

E ainda espero a cada dia a sua volta, é só você querer…

As lembranças me chegam sempre em noites tão vazias

E mexem tanto com minha cabeça

Que quando o sono vem o dia já nasceu

A distância me tira pouco a pouco a esperança

De ter você comigo novamente

E reviver aquele nosso grande amor

Tantos planos, sonhos feitos em pedaços por você

Que tolice, tanto amor desperdiçado por nós dois

E na solidão me agarro a qualquer coisa

que ainda resta desse amor

Pra sentir sua presença novamente, seja como for.

            O restaurante se esvaziou e eu, logicamente, tive que ir para casa.

            Chegando a casa, quase de manhã, minha mãe, que já estava preocupada, pois eu não costumava chegar tarde,preocupou-se, ainda mais, com minhas lágrimas (há coisa pior do que uma mãe ver lágrimas nos olhos do filho?).

            Dois depois, no entanto, tudo se resolveu. Ela me procurou e continuamos o noivado e, 7 anos depois do início do namoro, veio o casamento.

            Ainda hoje, não consigo ouvir “Vivendo por Viver” (que, aliás, não é de Roberto, mas sim, de Márcio Greyck), sem chorar. Não se chora só de tristeza; chora-se, também, de felicidade.

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