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Professor Trindade

No dia 09 de fevereiro de 1926, a Coluna Prestes protagonizava um episódio triste, “coroado” por uma chacina perpetrada contra os moradores da cidade de Piancó.

Até hoje, historiadores oficiais fazem de tudo para obscurecer o episódio, para não tirar a “aura” de heroísmo da coluna citada. Pelo menos em relação a Piancó, não houve heroísmo algum, conforme relatarei a seguir:

Dia 09 de fevereiro de 1926, por volta das 8 horas da manhã, a Coluna Prestes irrompe em Piancó. Logo de cara, um dos membros dela, o capitão Pretinho, é atingido com um tiro. A coluna ensandece e faz um ataque de ferocidade sem par, que culminou com morte do Padre Aristides, líder político da cidade, e mais quarenta homens que com ele estavam para defender a localidade.

Em verdade, tudo nasceu de um mal-entendido (?). O combinado seria a coluna passar, sem qualquer incidente, e o chefe local, padre Aristides, houvera garantido à Coluna que tudo correria em paz. O padre, inclusive, já havia até preparado tudo para ir embora da cidade, com a família, que realmente a abanou, o que, aliás, foi feito pela maioria dos moradores.

Ocorre que o religioso recebera, de última hora, um comunicado do Presidente do estado (na época, o que hoje se chama governador se chamava Presidente) dizendo que a coluna estava faminta, quase desarmada e com poucos homens: uma armadilha!

O padre caiu na armadilha do Presidente da província e resolveu enfrentar a Coluna, mesmo tendo com ele apenas 40 homens, acreditando que esta estava enfraquecida. Como já foi dito, logo na entrada da cidade um oficial da coluna é baleado e morto. Esta, ensandecida, parte em busca de matar o padre e quem estivesse ao lado dele.

Só que a coluna não fez apenas isso: saqueou os estabelecimentos comerciais da cidade, levando víveres e ateando fogo ao que eles não iriam aproveitar. Sem deixar, é claro, de praticar uma verdadeira chacina contra os homens do padre, sangrando-os e os matando. O padre foi sangrado, impiedosamente. 

Até aí não há controvérsias.

As controvérsias estão num ponto da história em que se afirma que os Leite – a família hegemônica na região, antes do domínio político do padre – terem usado homens que teriam se infiltrado entre os da Coluna para matar, de forma cruel, o padre. Inclusive, tem-se notícia de um sujeito que se aliou a ela no Piauí, para se vingar do vigário. E havia alguns elementos de máscara (essa história da máscara foi confirmada a mim, em entrevista, por Joanita, a filha do padre, que chegou a guardar em casa uma dessas máscaras da qual foi dado sumiço, segundo ela, por uma pessoa que chegou na casa dela e a convenceu a levar a máscara para a casa desta, e não mais a devolveu). 

A versão da traição dos Leite Jamais foi provada; no entanto, não houve provas de não tenha havido.

Essa história é contada, de maneira absolutamente imparcial, no meu cordel “A Coluna Prestes em Piancó”. A obra tem capa do hoje confrade Flávio Tavares.

Para que o leitor tenha noção do episódio e do cordel, seguem-se algumas estrofes:

Agora eu vou contar
Uma história verdadeira
Que se deu em Piancó
Uma cidade altaneira
Do sertão da Paraíba
Coisa séria, não foi besteira!

Dia nove de fevereiro
Do ano de vinte e seis
Os fatos que lá se passaram
Ficaram na nossa história
Uma glória às avessas
Do povo ficou na memória.

Eram oito da manhã  
Quando Coluna entrou
Pensando ser recebida
Com respeito e sem ardor
Mas determinado soldado
Na coluna atirou.

Os homens de Carlos prestes
Então malucos ficaram
Disseram: vamos vingar
A traição da cidade
E do padre Aristides
Só vai ficar a saudade.

O padre era líder político
Famoso na região
Tinha enfrentado os Leite
Com força e determinação
Prometera receber a coluna
Com respeito e consagração.

Mas acontece que o padre
Na verdade foi traído
Disseram que a coluna 
Estava enfraquecida
Para agradar ao governo
O padre perdeu a vida.

Mente quem diz que o padre
Com cangaceiro se juntou
Para enfrentar a coluna
Com muita gente se armou;
O contingente do padre:
Quarenta amigos de valor.

A coluna se não era
Sanguinária se tornou
Tocaram fogo na casa
Do padre e o fogo provocou
A corrida de Inácio
E de outro morador.

Inventaram sobre o padre
Algo que não tem perdão
Dizem que ele ofereceu
Mil votos pela salvação
O padre sabia que votos
À coluna não interessava não!

Seguiu-se então a maior
Chacina da região
Os homens arrancaram o padre
Da casa, sem compaixão
Nem deixaram o pobre rezar
A reza da extrema-unção.

A verdade é que há suspeita
E a versão é corrente
De que inimigos do padre
Da ocasião se aproveitaram
Juntaram-se, então, à Coluna
E do homem de Deus se vingaram.

Um livro de Glauco Carneiro,
Historiador verdadeiro
Fala dessa versão
Que o povo consagrou
O inimigo seriam os Leite
E essa história se abafou.

A verdade é que a chacina
O nome da coluna manchou
A passagem por Piancó
Pra ela não trouxe valor
Somente a fortaleza
Do sertanejo comprovou.

O padre errou porque quis
Ao governo agradar
A coluna porque exagerou
Para uma “traição” vingar
E os Leite porque – diz o povo! –
Quiseram se aproveitar.

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