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Léo de Castro

Não é fácil para mim escrever este artigo.  Por natureza, sou otimista. Procuro sempre ver o lado positivo dos fatos, mas o atual momento da política no Brasil tem abusado deste otimismo e gerado uma profunda indignação.

Vem aí uma ressaca, uma grande crise. Não sei exatamente quando nem com que intensidade, mas, por tudo que se vê, me arrisco a afirmar que já ela está contratada. Caminhamos rumo a um abismo, sem que as lideranças políticas do país adotem as devidas medidas para evitar o caos.

Vejam a nossa dramática realidade: crescimento consistente da inflação; desemprego estabilizado em um patamar altíssimo há anos; recrudescimento da pandemia, com sucessivos recordes de mortes, expondo a chaga da saúde pública brasileira; atraso na compra de vacinas e politização de uma questão estritamente sanitária; “bate-cabeça” entre os Poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário – sem avanços na antiga agendade reformas; ausência de liderança equilibrada  para conduzir e unificar o país neste momento de desafios gigantescos; déficit fiscal batendo recorde; intervenções populistas em empresas estatais que há tempos deveriam ter sido privatizadas; tentativas de tabelamento de preços dos fretes, contrariando a lei da oferta e da procura; desconstrução de movimentos relevantes para reduzir a corrupção – nesta semana acentuados; jovens desnorteados por interrupções nas atividades escolares, com ampliação absurda da dificuldade de inserção nomercado de trabalho; líderes globais olhando para o próprio umbigo em vez de pensar globalmente.

Nesta semana a situação no Brasil se agravou mais ainda com a decisão judicial que torna elegível o ex-presidente Lula. Para além do mérito jurídico da questão, que não nos cabe analisar, o que vemos é o aprofundamento da polarização política no país, reacendendo os extremismos nos dois espectros da política, à esquerda e à direita.

A tendência, com esse cenário, infelizmente, é de os dois campos políticos buscarem saídas populistas para questões complexas, visando aplausos e aprovação popular, pensando não no futuro do país, mas nas urnas em 2022.

Essa corrida insensata tem tudo para não enfrentar os reais problemas. Quem age de olho nos índices de popularidade normalmente foca no resultado imediato, não nas medidas corajosas, às vezes amargas, que precisam ser efetivamente adotadas.

Mal comparando, políticos que adotam essa postura agem como aqueles pais que só buscam a aprovação dos filhos: sem saber impor limites, acabam criando monstros.

Bem, a hora é de dizer basta!!! Chega!!!

Mais do que nunca, a hora é de ação, em favor dos brasileiros.

As perguntas que martelam nossas cabeças são: por que não resolvemos essas questões que se arrastam há décadas? Falta competência? Vontade política? Seria apenas egoísmo? Ou cinismo? Quem poderia mudar esse quadro? Existiria solução mágica?Porque não resolvemos até hoje pendências históricas como as reformas estruturais?

Por que polarizar um país?  Quem ganha com isso?  Por que criar novos problemas quando já temos tantos para resolver?

Uma coisa é certa: quem sempre perde é o brasileiro, em especial os menos favorecidos. Os mais pobres sofrem primeiro com a inflação, com um sistema de saúde precário, com a falta de saneamento básico, com o ensino sem qualidade para seus filhos, com a fome. E não estamos falando de uma minoria: mais de 120 milhões de brasileiros dependem do Bolsa Família, e 27 milhões de trabalhadores vivem com um salário mínimo.

A pandemia desnudou e agravou um quadro que já era dramático.

Na outra ponta da estatística, agora teremos a notícia de que o Brasil não está mais entre as 10 maiores economias do mundo: acabamos de cair do 9º para o 12º lugar. Isso é estatística nobre, mas a tradução significa que geramos menos renda, e quem gera menos não tem como distribuir mais.

Voltando às perguntas iniciais, resta apenas uma resposta: quem tem a solução neste momento é a política e os(as) políticos(as)!

Somos uma democracia, graças a Deus, e esses profissionais escolheram ingressar na vida pública. Decidiram ser candidatos, disputaram eleições, foram eleitos. Agora têm o deverde nos liderar nos caminhos corretos.

A sociedade civil organizada pode participar dos debates para a busca de soluções, mas a autoridade paradecidir, dentro das regras democráticas, é deles.

Mais do que nunca, precisamos que os políticos honrem seus votos, que façam as mudanças que precisam ser feitas, que enfrentem os debates necessários, que enfrentem as corporações para que possamos deixar de ser um país de grupos privilegiados.

Que os políticos lutem, enfim, pelos 210 milhões de brasileiros, e não por grupos de interesses menores. E que o façam buscando a união, a convergência, e não protagonismos isolados.

Vale ressaltar que temos sim bons representantes na política, mas aparentemente estão em ínfimaminoria.

Espero estar equivocado sobre o iminente abismo, mas acima de tudo espero que o país possa ter uma classe política que nos orgulhe e nos guie para uma sociedade mais próspera, equilibrada e justa.

Léo de Castro é empresário, Vice Presidente da Confederação Nacional da Industria-CNI e ex-Presidente da Federação das Industrias do Espírito Santo

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