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Josuel Gomes

Sou o terceiro de uma família de 9 filhos, morando nos limites da cidade de Caiçara, ou como gosto de falar, “no interior do interior de uma cidade do interior”. Aprendi muito cedo o que é a Hora da Virada, aquele momento em que é necessário você recomeçar, dar a volta por cima. Em 1981, o Rio Curimatau que passava perto de onde morava, transbordou em uma enchente, e as águas atingiram a nossa casa de pau a pique (espécie de construção de madeira e barro, muito comum no interior). A água foi tanta, que chegou a ficar acima das janelas, e como era uma construção só de bairro e madeira, o que aconteceu? Exatamente: onde a água bateu, o barro caiu e apenas as madeiras ficaram de pé.

Entretanto, foi a partir desse momento que meu pai entrou em ação. Ele tratou logo de iniciar uma negociação com o vizinho e conseguiu trocar as terras enlameadas, por uma região mais alta, onde o rio nunca tinha tocado, e que nos trazia bastante segurança. Meu pai não se vitimou. Meu pai não ficou murmurando, muito pelo contrário, logo entrou em ação e conseguiu construir uma casa muito melhor, e agora, sendo mais firme, com tijolos e cimento, com alpendre (conhecido na cidade como “varanda”), onde as tardes ensolaradas e as noites de luas cheias passaram a ouvir belas histórias em família. No fim, aquele episódio proporcionou uma virada nas nossas vidas, que se não fosse a tragédia, talvez não tivesse acontecido a benção.

Um outro episódio, foi a Praga do Bicudo que dizimou toda a nossa plantação de algodão. Para tirar o sustendo da terra, meu pai tinha um mix diverso de plantação bem interessante, o feijão, a fava, o milho, a batata, o inhame, mas para retirar o valor necessário para fazer as compras daquilo que não produzíamos, era através do famoso “ouro branco”: a produção de algodão.
A plantação de algodão era a coisa mais linda do mundo: bem verde, parecia um tapete que dava gosto de ver, e quando estava perto da colheita, ficava branquinho, de encher os olhos. Em 1986, eu já empreendia no meu próprio roçado, tinha aprendido com meu pai essa profissão, e imaginava um futuro promissor. Foi quando veio a Praga do Bicudo (uma pandemia na lavoura) que dizimou toda a plantação. Aquele roçado verde que dava gosto de ver, agora amarelado, com as folhas e flores cobrindo o chão, deixando os caules murchos e desidratados.

Com apenas 15 anos nesse tempo, olhei para o meu pai, José e, parafraseando o poeta, disse: “E agora, José?”. Meu pai, que também já tinha passado por muitos desafios, homem de muita fé, respondeu: “Deus vai dar um jeito, filho! Deus oferece a roupa conforme o frio, isso vai passar, não há noite escura que não tenha um dia na sequência”. Homem de palavras sábias e impulsionadoras, a quem devo toda minha resiliência, sem esquecer minha mãe, dona Maria, que não ficava atrás em palavras sábias e crenças fortalecedoras. Como na Sagrada Família, José e Maria, algo realmente divino, como tudo o que Deus faz.

Ao perder tudo, pensei, pensei, e pensei mais. Chorei e chorei muito, muito, pois me sentia impotente naquela situação, morando no interior, sem luz elétrica, sem água encanada, 10km de distância da cidade mais próxima. O que fazer, para sair daquela situação? Foi aí que decidi vir embora para João Pessoa. Arrumei um emprego em uma barraca para ganhar meio salário mínimo, mas cheio de esperanças nas oportunidades que a capital disponibilizaria.

Ali foi a minha hora da virada. Perder tudo me fez olhar para onde eu não olhava, se não fosse a pandemia em minha plantação, aquela seria uma situação confortável, e provavelmente eu teria ficando naquela terra seca, juntamente com meus irmãos e meus pais. Mas a vinda para cidade grande juntamente com meu irmão mais velho que eu, o segundo dos 9, foi impulsionador para uma qualidade de vida melhor. Esses momentos de grandes desafios, que passamos são para o nosso crescimento, por isso não fique murmurando, procurando culpados. Antes de pensar “por que isto está acontecendo comigo”, pergunte-se: “PARA quê isso está acontecendo?”

São nesses momentos que crescemos, que aprendemos, e pode ter certeza, eles são necessários. A própria natureza é a prova, se você ajudar a borboleta a sair do casulo, ela morre, pois, o processo de metamorfose, o sofrimento da transformação, é necessário para que ela fique forte e consiga voar. As oportunidades estão aí, elas são acompanhadas das dificuldades, nós precisamos apenas parar para enxergá-las.

Sugiro, inclusive, você abolir do seu repertório a palavra dificuldade, e usar a palavra desafio. A palavra dificuldade traz consigo um peso, uma estagnação, já a palavra desafio coloca você em movimento, em ação. Faça o teste! Pegue uma situação e trate como sendo uma dificuldade, depois a mesma situação trate como um desafio.

Olhe para seu negócio e se pergunte:
O segmento está crescendo?
O segmento está estagnado?
Existe ainda oportunidade?
Posso fazer o que faço de forma diferente?
Que tamanho é este mercado?
Vale apenas continuar neste segmento?
Seria a hora de partir para outro modelo de negócio?

É assim que enxergamos a nossa realidade e assim, aproveitamos as oportunidades. O segredo é continuar sempre, virar a chave.

Josuel Gomes

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