Início Colunas
Hermes de Luna

Claro está que o calvário de alguns agentes políticos da Paraíba está bem longe de chegar ao fim. O que se viu hoje das operações simultâneas, desdobramentos da Calvário, firmadas pelo Gaeco como “A Origem”, foi outro lance de escada dessa Torre de Babel onde, em cada fase, assiste a ruína dos seus pilares. Dessa vez, o Ministério Público denunciou 33 investigados à Justiça paraibana, mas para quem leu o calhamaço das denúncias, em mais de 60 páginas onde se detalham as participações de cada um deles, fica claro que vem muito ainda pela frente. É só seguir puxando mais esse fio do novelo criminoso.


É fácil entender que o gênesis de todo esquema montado para fraudar licitações, montou sua matriz na gestão municipal de João Pessoa, por volta de 2010. Foi abrindo várias frentes, à medida em que seus operadores se esbaldavam em propinas. Quanto mais obras, para o discurso para o público externo ser de gestão eficiente e operacional, mais dinheiro no bolso. Dinheiro público que bancava nababescas vantagens para quem participasse da organização criminosa. 


A praga da corrupção contaminou quase todo coletivo girassol. Quem participava irrigava o recebido para os chefes superiores, mas garantiam seus milhares de reais numa espécie de “caixa 3” do “caixa 2” das campanhas políticas e de acordos entre partidos e lideranças para continuarem apoiando o PSB e seus candidatos. Nas duas novas denúncias, o Ministério Público aponta novamente, sem meias palavras e sem arrodeios, o ex-governador Ricardo Coutinho como o chefe da organização criminosa. 


O que chama a atenção é que vai crescendo de forma exponencial a participação de Coriolano Coutinho nesses esquemas. O irmão do ex-governador é o ator principal dessas quatro últimas fases da Calvário e parece que o Gaeco ainda vai associa-los a novos crimes, alguns até sustentados em gravíssimas acusações. 


A origem de todo esse esquema não tinha a participação da Daniel Gomes, ex-comandante da filial da Cruz Vermelha Rio Grande do Sul, que só vai surgir nos esquemas relacionados ao setor de Saúde, com as organizações sociais mandando ver nos hospitais públicos do Estado. O começo de tudo manteve a essência de um projeto de de poder ficando em desvio de recursos públicos, que avançou ainda mais com a chegada do PSB na gestão estadual. 


Foram inseridos novos personagens, que atuavam de acordo com o roteiro definido pelos superiores hierárquicos. O esquema fraudulento ganhou status de organização criminosa, os desvios ficaram cada vez maiores e os propósitos já não eram apenas para bancar campanhas políticas ou segurar apoios partidários. O enriquecimento ilícito foi se avolumando nessa estrutura e, sem ter como segurar tanta gente na mira dos Ministérios Públicos da Paraíba, do Rio de Janeiro, do Distrito Federal e de Góias, as delações foram inevitáveis. 


Quando se quer confrontar uma delação, os investigados usam a desculpa de quem está preso quer ficar livre logo e, por isso, sob pressão psicológica, fala o que não deve. Pode até ser assim, mas a delação é apenas um ponto de partida dessas investigações. O Gaeco, por exemplo, confere datas, eventos, rastros de telefonemas e mensagens pelos mais diversos meios eletrônicos; e usa da inteligência tecnológica do Tribunal de Contas do Estado e de outros organismos de controle externo. Ligados todos os pontos, fechado o firo, a desculpa dos investigados cai por terra. 


As denúncias de “A Origem” vão nessa linha. Estão amarradas em dados, monitoramento de investigados e confrontação de tudo que foi dito nas colaborações premiadas. O Ministério Público deu o seu recado, voltamos para o início de tudo. Vamos assistir outras ondas varrerem a Calvário e arrastarem para suas malhas novos personagens – políticos, jornalistas e outros figurões – até chegarmos novamente ao Juízo Final. 

Comentários

Deixe seu comentário

Seu endereço de email não será revelado.

publicidade
© Copyright 2021. Portal Correio. Todos os direitos reservados.