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Josival Pereira

A polêmica sobre o projeto de lei aprovado na última semana pelos vereadores de João Pessoa classificando os cultos religiosos como atividades essenciais acabou trazendo luz ao debate.

O projeto foi movido muito mais por interesses de natureza política do que religiosos. Basta consultar entrevistas dos próprios vereadores e ver notícias nacionais sobre fatos correlatos.

Esclareça-se, inicialmente, que não se tratou de um movimento religioso nacional ou uma articulação das Igrejas. Os bispos do Brasil nem os líderes das principais denominações evangélicas têm nada a ver com as iniciativas para transformar os cultos em essenciais. Existem articulações em alguns Estados e cidades brasileiras, mas quase todas de entidades religiosas e pastores apenas de relativa importância.

E o que há por trás desta articulação?

A linha que enfileira os religiosos que encampam esta luta é a defesa da concepção que as medidas para enfrentamento da pandemia não devem restringir atividades hoje garroteadas, como a educação, o comércio e, lógico, os cultos nas igrejas.

Numa entrevista ao programa Correio Debate, a vereadora Elisa Virgínia, uma das líderes do movimento, acabou deixando escapar que, “se continuar do jeito que vai, as pessoas vão acabar atacando as casas em busca de comida”. Ela chegou a dizer que não existe comprovação de que o lockdown ou restrições ajudem no combate ao coronavírus.

Não há como não identificar alinhamento entre aqueles que defendem a liberação dos cultos e o discurso de liberação geral de todas as atividades do presidente Bolsonaro.

O movimento pode até nem receber o comando direto de Bolsonaro, que provavelmente seja apenas mais um seguidor da ideologia defendida, mas a fina sintonia é indisfarçável.

A verdade é que existe uma concepção extremamente conservadora e pouco humana por trás de tudo, que, numa análise mais ampla, serve aos interesses atuais do Palácio do Planalto.

No particular, também como motivação política, os vereadores religiosos alegaram que a aprovação da lei seria uma resposta ao governador, que não teria dialogado com as igrejas, sem falar que todos agem para fidelizar seus eleitores. O resto é pregação ao vento.

Registre-se, por fim, que essas escaramuças fundamentalistas são precedentes bastante perigosos.

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