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Professor Trindade

Aroaldo Maia tem sede de contar! De contar a vida, a alegria, a tristeza, os amores, as lembranças, sucessos, fracassos, remorsos… Enfim, contar tudo o que é matéria de que se faz a vida. E o que é a vida senão uma grande crônica?

A palavra crônica pode ser encarada de várias maneiras. A crônica pode ser qualquer história que se conte com detalhes, escrita ou oralmente.

No sentido técnico literário, no entanto, crônica é uma narrativa curta, que retrata o dia a dia, com tratamento literário, por meio dos recursos inerentes à literatura. É um misto de literatura e jornalismo.

Já vi alguns livros que englobam artigos chamando-os de crônica. Não concordo com tal visão. O artigo, mesmo que retrate um fato do dia a dia, é uma análise denotativa, enquanto que a crônica puramente literária traz uma visão conotativa; às vezes, até contendo ficção; nesse caso, confunde-se com o conto. Daí alguns editores chamarem contos coletânea de textos de grandes cronistas, como uma importante editora fez com uma coletânea de Rubem Braga. Considerei e considero um crime. 

No conjunto de artigos e crônicas que escolheu para este livro, Aroaldo repete o diapasão das obras anteriores: textos eminentemente memorialistas, despojados de preocupação estritamente literária, mas juntando uma porção de realidade e lirismo aqui e acolá; e esse talvez seja o seu grande mérito.

Chamaram-me, particularmente, a atenção as crônicas: “A expulsão”, “Chance perdida”, “Lembranças” e “Pintura da paz”. Isso não significa, evidentemente, que as demais não tenham valor.

O ponto forte das narrativas de Aroaldo é, sem dúvida, a descrição de ambientes e pessoas e o registro de determinada época.

Eis alguns trechos que provam minha argumentação:

“(…) Naquele grupo estava, também, um rapaz magro, alto, alegre, comunicativo; porém, muito transgressor e indisciplinado: era o soldado S.T (sd); já tinha recebido  várias repreensões, muitas detenções e seu nome estava, constantemente, no Boletim Interno da Unidade, sempre por problemas de indisciplina, desacato e desobediência de ordens recebidas; bem como faltas e atrasos para o expediente.

Vivíamos os primeiros anos da Ditadura e, com muita constância, o quartel ficava de prontidão. Todo o contingente dentro do quartel, pronto para entrar em ação, caso fosse necessário. Dormíamos fardados; apenas folgávamos o cadarço dos coturnos. O cinto de guarnição, fuzil, com cantil e baioneta ao pé da cama (…).”

(“A expulsao”).

“(…) O último ônibus saía às 19 horas. Então, tinha que lanchar numa barraca próxima (sanduíche de carne de baleia com suco de mangaba ou de laranja) e dormir na sala, sobre uma grande mesa, onde executava meu trabalho; ou, em noites lindas, na boleia de um caminhão estacionado no pátio do engarrafamento. No centro da cidade, uma amplificadora tocava “Hei Judy”, dos Beatles, Ray Charles; e eu, cansado, adormecia.

Tinha, também, o lado bom. Também pudera, não é?… Cigarros, só fumava americanos: Malboro, Camel, HalfandHalf e outros. Sempre tinha gente que lavava um saco cheio de pacotes de cigarros; perfumes Chanel, Cabochat, Fleur D’maour, Lancaster, para nos vender. Começaram a aparecer as calças Far West, radiolas portáteis e tantos outros objetos. O porto não tinha muro e a muamba corria solta.

Em frente ao porto, existia o Loyd Bar e Restaurante. Era de um senhor também aposentado do Loyd Brasileiro. Ponto ideal para tomar cerveja, almoçar ou jantar uma boa peixada à brasileira e comprar artigos importados, como relógios de pulso e despertadores de viagem; pulseiras femininas, uísques, vinhos, calças jeans Far West e US Top.”

(“cabedelo”).

“(…) Tão apaixonado era pelo cinema de arte que gravei de alguns filmes frases de impacto, pronunciadas pelos atores. Eis algumas: ‘O verdadeiro amor não tem idade’, assim diz, repete, repisa a voz de uma mulher que sempre cantou ao amor; ao amor que sorri, ao amor triste, ao amor que vale muito, porque custa caro; amor, irmão do amor’. Do filme ‘Eu amo, Tu amas’, a frase se refere a Edith Piaf, cantado ‘Hino ao Amor’: ‘É a mulher que escolhe o homem que a escolherá”. Do mesmo filme. ‘Na vida, combatemos; na morte, no mesmo túmulo, em paz permaneceremos’. Do filme ‘Romeu e Julieta’. ‘Todas as guerras são idiotas’; frase dita pelo ator Marlon Brando, no filme ‘Morituri’. ‘Todo homem mata a coisa a qual ama; uns com um olhar amargurado, outros com a palavra floreada; os covardes, com beijo; os valentes, com a espada”. Do filme “Os Crimes de Oscar Wilde”, com Peter Finch.

(“Cinema deArte”).

E tá bom!… Se não transcrevo o livro todo e tira a graça!

(Prefácio meu para o livro “Como se Fosse um Filme”, de Aroaldo Maia, editora Ideia, 2025, lançado dia 31 de julho, na cidade de Sapé).

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