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Professor Trindade

Confesse, leitor: você acharia estranho ouvir alguém dizer: “Eu arrependi de haver namorado aquela moça”, não? Certamente, esperaria ouvir: “Eu me arrependi de haver namorado aquela moça”… Pois saiba que a primeira forma é, também, correta.

Verbos como arrepender-se, abster-se, ater-se, atrever-se, esforçar-se, queixar-se etc. trazem preso a si um pronome reflexivo fossilizado.

Embora pronominais, tais verbos não têm objeto direto, nem indireto.

O leitor há de convir que ninguém arrepende outrem, nem a si. Conforme destaca Rocha Lima, é provável que esse pronome tenha surgido por analogia com outros verbos como aborrecer-se, magoar-se, ferir-se… Sendo que, no caso destes, o pronome é objeto direto. Baseado nessa tese e em tais exemplos, é que defendo as variantes: suicidar-se ou suicidar.

Há verbos que aparecem, sem alteração de sentido, ora na forma ativa, ora com pronome reflexivo. Eis alguns exemplos:

Vestir ou vestir-se; inclinar ou inclinar-se; levantar ou levantar-se; retirar ou retirar-se; findar ou findar-se; estribar ou estribar-se; embarcar ou embarcar-se; aferrar ou aferrar-se; enfileirar ou enfileirar-se; recolher ou recolher-se; multiplicar ou multiplicar-se, etc.

Conforme assinala Souza da Silveira, na sua Fonética Sintática (Organização Simões, Rio, 1952, pág. 141, apud Rocha Lima, Gramática Normativa da Língua Portuguesa, Livraria José Olympio Editora, Rio, 1983, pág. 310): “Se para alguns se pode admitir como anterior a forma ativa, para outros esta é a posterior e resulta da conjugação reflexa à qual se tirou, como um trambolho, o pronome átono”.

Para encerrar, dois exemplos de Ruy Barbosa, citados por Rocha Lima:

“Veja-se o que tem passado na América do Norte”.

“De cada exclusão, dei os meus motivos. E nenhum deles estribava no culto da invariabilidade clássica”.

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