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Professor Trindade

Equívocos

Passemos, agora, à última fase do nosso estudo: a enumerar equívocos relativos à poesia e vida de Augusto dos Anjos; menos com a intenção de demonstrar erros alheios do que pela vontade de fazer valer a verdade.

Na realidade, alguns equívocos de seus vários biógrafos são incompreensíveis e inadmissíveis. Por exemplo: como entender o fato de Orris Soares, contemporâneo e colega do poeta, afirmar, categoricamente, no “elogio de Augusto dos Anjos” que o poeta morrera em 1913 e com 29 anos de idade? Sabemos ter nascido o poeta do Pau D’arco em 1884 e morrido em 1914, quando contava 30 anos, portanto. Claro que um equívoco de data nem sempre representa grande coisa; mas é preciso evitar, nas reedições, esses erros, contidos, também, na 35ª edição, de 1983. Não adulterar o texto de Orris, claro! Mas chamar a atenção do leitor com uma nota de rodapé.

Outro equívoco e ainda de um paraibano, Horácio de Almeida. O estudioso foi bastante infeliz quando afirmou ter Augusto dos Anjos escrito o “Monólogo de uma Sombra” com apenas 17 anos de idade. Afirmação absurda, uma vez que o “Monólogo” faz parte da fase madura do poeta. Magalhães Júnior conserta, dizendo que para se convencer de que o “Monólogo de uma Sombra” não foi escrito aos 17 anos basta comparar as produções de 1901 do autor com o “Monólogo”. Baseado em Magalhães, publicamos em artigo de 1983, na imprensa paraibana, uma comparação que comprova as palavras daquele crítico. Comparamos, na brevíssima nota, o poema “O Coveiro” Cf. “EU”, 35ª edição (p.242) e o “Monólogo de uma Sombra” (idem, pp. 75/80). A diferença de estilo e vocabulário (impregnado de cientificismo no segundo) é gritante. Sem contar que o “Monólogo” é, sem dúvida, mais maduro e aperfeiçoado, enquanto que o primeiro é um poema deveras infantil.

Augusto dos Anjos foi autor de um único livro: “EU”, editado em 1912. Mais tarde, Orris Soares edita, com notas suas, a segunda edição, sob o título “Eu e outras poesias”. A partir daí,o livro não parou mais de ser reeditado, adorado, lido e declamado pelo povo. A idolatria que o povo tem por Augusto dos Anjos é de se estranhar, já que a linguagem dele não é acessível às camadas populares. Mas a sonoridade dos versos e a perfeição com que foram escritos garantiram ao poeta o nome defendido pelo povo e o reconhecimento – embora tardio – da crítica especializada.

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