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Professor Trindade

Este texto é a continuação do publicado aqui, em 2/5/2025, e representa uma condensação organizada, bibliograficamente, de duas conferências que proferimos, sem o auxílio de qualquer anotação: uma na Câmara Municipal de João Pessoa, dentro das comemorações oficiais do 1º Centenário de nascimento de Augusto dos Anjos, em 1984, iniciativa conjunta da Câmara e Prefeitura Municipal; e outra em 1985, na Academia Paraibana de Letras, em celebração aos 400 anos da Paraíba, evento promovido pela própria Academia, em conjunto com a Secretaria de Educação do Estado da Paraíba e Secretaria de Cultura.

Filiação estética

A que estética literária se filia Augusto dos Anjos? Sua poesia, bastante diversificada, apresenta elementos que tanto podem lembrar o Barroco, como o Naturalismo, Simbolismo, Parnasianismo, até mesmo chegando em alguns lances, resguardadas as devidas diferenças, apresentar aquele tédio ultra-romântico e obsessão pela morte, sendo esta em Augusto de natureza materialista e, nos românticos, de natureza espiritualista. Tudo isso se junta aos traços mais importantes da poética augustiana: os de modernidade.

Observemos algumas passagens impregnadas do dualismo que lembram o do Barroco no poeta:

Ser miserável dentre os miseráveis

— Carrego em minhas células sombrias

Antagonismos irreconciliáveis

E as mais opostas idiossincrasias!

(…)

Psique biforme, o Céu e o Inferno absorvo…

(…)

Ceva-se em minha carne como um corvo

A simultaneidade ultramonstruosa

De todos os contrastes famulentos!” (Vítima do Dualismo).

Ou ainda:

A antítese do novo e do obsoleto,

O Amor e a Paz, o ódio e a Carnificina,

O que o homem ama e o que o homem abomina,

Tudo convém para o homem ser completo!” (Contrastes).

O naturalismo prova-se pelo cientificismo marcante na obra de Augusto. A sonoridade (que não é a musicalidade simbolista), as iniciais maiúsculas em substantivos comuns fizeram com que alguns estudos catalogassem Augusto dos Anjos como simbolista. Puro engano. Como poderias ser simbolista um autor profundamente materialista e que afirma que “um escarro contém mais filosofia que toda a moral do cristianismo?” O mesmo equívoco acontece com quem afirma ser Augusto um autor parnasiano, baseando-se na metrificação. A metrificação preferida por Augusto não era a usada pelos parnasianos. A propósito, vale a pena observar a repetição excessiva da palavra homem no soneto “Contrastes”, cacoete que irritava os parnasianos.

O traço mais importante, porém, que se afigura na poética de Augusto dos Anjos é, sem dúvida alguma, a modernidade. O poeta eclode numa fase precursora do modernismo e, por razões óbvias, os que fizeram o modernismo não quiseram perceber ou não deram a público haver percebido que Augusto que Augusto dos Anjos foi o verdadeiro precursor da poética da modernidade (em face do modernismo) no Brasil. Por modernidade se entende desde o rompimento romântico com os clássicos. Mas a modernidade de Augusto dos Anjos foi uma modernidade que seria reaproveitada (ou aproveitada!), oficialmente, no modernismo. Augusto foi o moderno que a Semana de Arte Moderna não soube (ou não quis) reconhecer. E aí tem que se dizer que os Mário e Oswald de Andrade, críticos do preconceito, tiveram, também, preconceito literário contra o nosso poeta.

Quais os traços de modernidade em Augusto?

Ora, logo de cara as repetições e os recursos “estranhos” para a época. O poeta, no poema “Os Doentes” (Cf. EU, 35º ed. Pág. 106), coloca a palavra exemplo, abreviada (ex.):

“Como que havia na ânsia de conforto
De cada ser, ex.: o homem e o ofídio,
Uma necessidade de suicídio
E um desejo incoercível de ser morto!

Encontramos no “Poema Negro” (pág.48) o registo à letra esse, não com a palavra esse, mas com a própria letras S, recurso para a época totalmente extravagante; absolutamente inaceitável.

Outro ponto relativo à modernidade: Augusto foi quem trouxe o prosaico à poesia brasileira. Aquele prosaico de que tanto falam os modernistas de primeira geração já se encontrava na poesia augustiana.

Como fugir, então, ao “lugar comum” de afirmar que Augusto dos Anjos não tem escola literária? A não ser que deixemos a pergunta no ar, sem resposta, e afirmemos apenas o igualmente óbvio: que Augusto apresentou um sincretismo total em sua obra, sendo, por isso mesmo, considerado, convencionalmente, como um autor pré-modernista.

Razões do pessimismo e cientificismo

Tentemos enumerar as razões por que obra de Augusto é tão derrotista e cientificista. O cientificismo explica-se pelas leituras do poeta: Haeckel, Lamark, Darwi, Spencer… nomes ligados aos inúmeros “ismos” da segunda metade do século XIX.

Em relação ao pessimismo e derrotismo, analisaremos dois tipos de razão: um de caráter bibliográfico; outro de caráter biográfico: Augusto dos Anjos lia bastante as obras de Baudellaire e Shopenhauer, justamente os expoentes máximos do pessimismo no mundo. O livro “As Flores do Mal” e as leituras que fazia de Shopenhauer certamente terão formado a ideia de pessimismo e derrotismo na alma e na escrita do poeta do Pau D’arco.

Três traços na vida do autor paraibano explicam claramente o pessimismo e a descrença presentes na sua obra: a morte do pai, a ruína financeira da família, além de um episódio amoroso funesto acontecido na sua juventude. O poeta amava uma agregada da casa. A mãe do poeta, sabendo do idílio, afasta a garota, a fim de evitar aquela ligação. A insistência do poeta naquele relacionamento gera uma ira tão grande na mãe dele, a ponto de mandar surrar a moça, matando um filho do poeta que estava no ventre da namorada e, não se sabe ao certo, a mãe do feto também. Alguns biógrafos paraibanos procuram esconder o fato, mas a verdade é que versos posteriores do poeta nos levam a acreditar no ocorrido. Vejamos o soneto “Súplica num Túmulo”, notado tanto por Ademar Vidal como por Horácio de Almeida:

Maria, eis-me a teus pés. Eu venho arrependido
 Implorar-te o perdão do imenso crime meu!
 Eis-me, pois, a teus pés, perdoa o teu vencido,
 Açucena de Deus, lírio morto do Céu!

 Perdão! E a minha voz estertora um gemido,
 E o lábio meu pra sempre apartado do teu
 Não há de beijar mais o teu lábio querido!
 Ah! Quando tu morreste, o meu Sonho morreu!
(…)

 Perdão! E este silêncio e esta tumba que cala!
 Insânia, insânia, insânia, ah! ninguém me responde…
 Perdão! E este sepulcro imenso que não fala!

Parece clara, nesse soneto, a alusão ao amor desfeito pela mãe. Horácio de Almeida vê ainda outra alusão à moça, no junquilho de “A Árvore da Serra”, interpretação com a qual discordamos.

Pois bem. Um homem que viu tamanha violência contra o amor ser praticada pela própria mãe, que lhe negara o direito a um filho, só pode mesmo descrer do amor e afirmar como afirmou nas “Queixas Noturnas”:

Sobre histórias de amor o interrogar-me

É vão, é inútil, é improfícuo, em suma;

Não sou capaz de amar mulher alguma

Nem há mulher talvez capaz de amar-me”.

(Continua na próxima coluna)

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