É nosso objetivo, nesta coluna, condensar, de forma organizada, bibliograficamente, duas conferências que proferimos, sem o auxílio de qualquer anotação: uma na Câmara Municipal de João Pessoa, dentro das comemorações oficiais do 1º Centenário de nascimento de Augusto dos Anjos, em 1984, iniciativa conjunta da Câmara e Prefeitura Municipal; e outra em 1985, na Academia Paraibana de Letras, em celebração aos 400 anos da Paraíba, evento promovido pela própria Academia, em conjunto com a Secretaria de Educação do Estado da Paraíba e Secretaria de Cultura. Em ambas, a intenção foi fazer um estudo sobre a obra de Augusto dos Anjos, não apenas no plano biográfico, mas, sobretudo, bibliográfico, somente contemplando o primeiro quando este assim exigisse.
Comecemos pela questão do estilo
Não foi à toa que Augusto dos Anjos chocou a sociedade quando da publicação do “EU”, ainda na época da “Belle Époque” e da literatura “sorriso da sociedade”… Poesia “sui generis”, estupefou a todos, com seus versos gritantemente pessimistas, contrastantes com as amenidades da poesia bilaqueana.Notem-se diferenças básicas como estas:
“Já não me amas? Basta! Irei triste e desolado
Do meu primeiro amor para outro amor sozinho…
Adeus, carne cheirosa!Adeus, primeiro ninho
Do meu delírio! Adeus, belo corpo adorado.” (Bilac) e
“Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta
Por trás dos ermos túmulos um dia
Eu fui refugiar-me à tua porta (…)
E eu saí como quem repele
Velho caixão a carregar destroços
Levando apenas na tumbal carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos.” (Augusto dos Anjos)
Foram essas diferenças entre a poesia de Augusto e o estereótipo da época que fizeram Bilac repudiar a poética do paraibano e críticos não menos impiedosos qualificá-lo de histérico, obcecado, louco e outros adjetivos pouco saudáveis.
Na verdade, Augusto criara um estilo; muito mais que um estilo: uma nova maneira de versejar, que alguns críticos erroneamente insistem em dizer que é impregnada da poesia de cruz e Souza. Na realidade, o poeta catarinense influenciou bastante Augusto dos Anjos na sua (de Augusto) formação poética. Porém, são exageradas as influências de que fala um Magalhães Júnior no seu excepcional “Poesia e Vida de Augusto dos Anjos”.
Filiação estética
A que estética se filia Augusto dos Anjos? A poesia dele, bastante diversificada, apresenta elementos que tanto podem lembrar o barroco, como o naturalismo, o simbolismo, parnasianismo… Tudo isso se junta aos traços mais importantes da poética augustiana: ostraçosdemodernidade.

Observemos algumas passagens impregnadas do dualismo barroco no poeta:
“Ser miserável dentre os miseráveis
– Carrego em minhas células sombrias
Antagonismos irreconciliáveis
E as mais opostas idiossincrasias! (…)”
Psiquê biforme, o céu e o inferno absorvo
(…)
Cava-se em minha carne como um corvo
A simultaneidade ultramonstruosa
De todos os contrastes famulantes”
(Vítima do dualismo)
Ou ainda:
“A antítese do novo e do obsoleto
O amor e a paz, o ódio e a carnificina,
O que o homem ama e o que o homem abomina
Tudo convém para o homem ser completo!”
(Contrastes)
O Naturalismo prova-se pelo cientificismo marcante na obra de Augusto.
A sonoridade (que não é a musicalidade simbolista), as iniciais maiúsculas em substantivos comuns fizeram com que alguns estudiosos catalogassem Augusto como simbolista. Puro engano! Como poderia ser simbolista um autor profundamentematerialista e que afirma que “um escarro contém mais filosofia que toda a moral do cristianismo”? O mesmo equívoco acontece com quem afirma ser Augusto dos Anjos um parnasiano, baseando-se na metrificação. A metrificação preferida por Augusto não era a preferida pelos parnasianos. A propósito, vale a pena observar a repetição excessiva da palavra homem, no soneto “Contrastes”, cacoete que irritava os parnasianos.
O traço mais importante, porém, que se nos afigura na poética de Augusto dos Anjos é, sem dúvida alguma, a modernidade. O poeta eclode numa fase precursora do modernismo e, por razões óbvias, os que fizeram o modernismo não quiseram perceber, ou não deram a público que haviam percebido que Augusto dos Anjos foi o verdadeiro precursor da poética da modernidade (em face do Modernismo) no Brasil.Por modernidade se entende desde o rompimento romântico com os clássicos. Mas a modernidade de Augusto foi uma modernidade que seria reaproveitada ou aproveitada, oficialmente, no Modernismo. Augusto, já se disse,“foi o moderno que a Semana de Arte Moderna não soube (ou não quis) reconhecer”. E aqui tem que se dizer que os Mário e Oswalds de Andrade, críticos do preconceito tiveram, também, preconceito literário contra o nosso poeta.
Quais os traços de modernidade em Augusto?
Ora, logo de cara, as repetições e os recursos “estranhos” para a época. No poema “Os Doentes” (Cf. EU, 35ª ed. Pág. 106) o poeta coloca a palavra exemplo, abreviada: Ex.Encontramos no Poema Negro (pág. 148) o esse; não a palavra grafada, mas o próprio S, recursos, para a época, totalmente extravagantes, absolutamente inaceitáveis.
Outro ponto relativo à modernidade: Augusto foi quem trouxe o prosaico à poesia brasileira. Aquele prosaico de que tanto falam os modernistas da primeira geração já se encontrava na poética augustiana, conforme provam os seguintes versos:
“Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo amigo é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém ainda causa pena tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!”
Quem antes de Augusto se atrevera a colocar escarro, um termo consideradona época “apoético” e de mau gosto num poema, além de elementos do cotidiano (prosaico) como fósforo e cigarro?
(Continua, semana que vem)