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Edilson Pereira Nobre Júnior

Será que na vastidão do globo existem locais propícios para amar? Afrodite, filha de Zeus, ou Vênus, filha de Júpiter, os terá consagrado com sua inexcedível beleza e sagacidade sedutora? As indagações são uma das múltiplas impressões da leiturade “Ave, palavra” (São Paulo: Global Editora, 2022), de Guimarães Rosa. Trata-se de uma miscelânea de escritos do autor, reunindo desde notas de viagem a meditações, passando pelo mundo dos diários, das poesias, dos contos e das reportagens poéticas, escritos dentre os anos de 1947 a 1967, mas publicados postumamente em 1970.

Numa linguagem inventiva que, ao mesmo tempo, possui a leveza de uma bela melodia executada ao piano, o autor nos transporta a um imaginário sem limites. Um dos textos (Terrae vis, isto é, a força da terra), após dizer que tudo está nos livros, Rosa afirma que já se escreve que o ambiente do Rio de Janeiro é um puro afrodisíaco, mas que, contudo, não se poderia menosprezar Poço de Caldas (MG), “seguramente um dos lugares brasileiros mais abençoados pela risonha filha de Júpiter”.

Em seguida, realça que, em se falando em solo propício para o amor, nenhum é melhor do que Paris, tanto que, conforme lhe declarou uma estudante de medicina, funcionária do Musée de l’Home: “Ici chez nous, vouslesavez, l’amourc’estendémique” (Aqui entre nós, sabeis, o amor é endêmico). Confirmando, o nosso escriba mineiro acrescentou: “Se algum dia, o que Deus não deixa, destruíssem a cidade até a qualquer pedra, depressa os amorgostosos de toda parte viriam reconstruí-la, por mundial erótica necessidade” (p. 266).

Rosa também mencionou que há três cidades europeias (Lyon, Liverpool e Magdeburgo) que, inversamente, são muito tristes, deprimentes até. Poderia ter apontado outras, especialmente na Alemanha, ao instante no qual serviu como cônsul antes e durante a eclosão da Segunda Guerra.

Isso porque, logo no primeiro texto do livro (O mau humor de Wotan), o diplomata-escritor afirmou: “O Fuehrer não encontra tempo para amar … O Fuehrer sagrou-se à política” (p.17). Melhor, então, LuísXV, o bem-amado, por inverter a frase, somente encontrando tempo para seus amores. Desse modo, o dilúvio que o rei francês prenunciara após a sua morte serviu para impulsionar a eclosão da Revolução Francesa.

O amor, sem dúvida, tem algo de revolucionário.

P.S.: Diante da ruína em que se transformou a França durante o seu reinado, atribui-se a Luís XV a seguinte frase: “Après moi, ledéluge” (Depois de mim, o dilúvio).


Edilson Pereira Nobre Júnior: magistrado e professor

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