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Josival Pereira

Demonstrando determinação política, o Centrão, agrupamento de partidos conservadores constituído durante a elaboração da Constituição (1987/88) e que de lá pra cá participou de todos os governos, derrubou dois ministros em 15 dias.

Talvez até tenha feito bem ao país, mas, com certeza, a depender do presidente Jair Bolsonaro, os ministros Eduardo Pazuello (Saúde) e Ernesto Araújo (Relações Exteriores) não seriam despedidos agora nem assim, sob pressão pública.

A voracidade e rapidez do Centrão, que se apossou das presidências do Senado e da Câmara dos Deputados no início do mês, tem um objetivo claro: demonstrar força política, capturar e sequestrar o governo Bolsonaro.

O presidente da República tenta resistir num ponto. Entrega a cabeça dos ministros, mas esperneia para não ceder nas novas nomeações. Parece aquela reação da velha piada do marido machista que esperneava para não dividir tarefas domésticas e, quando era obrigado a lavar os pratos, mesmo vencido, bradava com ar superior; “lavo, mas não enxugo”.

Bolsonaro ganhou a disputa pela nomeação do ministro da Saúde e, pelo visto, deve também escolher o novo ministro das Relações Exteriores, mas não pode esconder que está lavando a louça. O Centrão já é sócio do governo. E, pelo visto, quer a gerência.

Fragilizado e com a popularidade em baixa devido a má administração da crise da pandemia, além de tropeçar gravemente na articulação política, Bolsonaro se viu obrigado a se aliar ao Centrão para evitar um pedido de impeachment e ganhar apoio para tentar governar.

Ganha deste lado, mas o Centrão vai conseguir o que mais deseja: atenuar a fome fisiológica ocupando o maior número possível de cargos e impor sua pauta ao governo.

O problema é que não se sabe qual a pauta mais trágica. Se o conservadorismo ideológico de ultradireita do bolsonarismo ou se o patrimonialismo corrupto do Centrão. Uma obcecada por mudar conceitos e cultura, a outra avassaladoramente clientelista e usurpadora.

Seja como for, não se pode perder de vista que tanto as bandeiras de Bolsonaro quanto as do Centrão ainda têm apoio de amplos segmentos sociais e, por isso, vão se sustentando.

Difícil saber até onde vai a nova sociedade política nacional. O que se tem de certo é que, desde sua aglutinação na década de 1980, o Centrão entrou, usou e assistiu ao enterro de todos os governos do país (PSDB, PT, PMDB). Com um detalhe curioso que se dissemina nos cochichos dos velórios políticos: o Centrão vai com o caixão, mas não fica na cova.

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