Possessivo seu e ambiguidade
O pronome seu (e flexões) deve ser usado com parcimônia e cautela, porque, frequentemente, dá ambiguidade à frase e o uso excessivo dele, além de apresentar o pecado estilístico citado, denota pobreza vocabular. Além do mais, em geral é desnecessário e não acrescenta nada à frase. Vamos aos exemplos:
Ambiguidade: “Toffoli afirma que ‘jamais recebeu qualquer valor de Daniel Vorcaro ou de seu cunhado Fabiano Zettel’” (FolhadeSãoPaulo online, 20/03/2026). Ambiguidade: cunhado de quem: de Vorcaro ou de Toffoli?
Poder-se ia argumentar: “Mas o leitor de jornal sabe que Fabiano Zettel é cunhado de Vorcaro”. Ora, a publicação não pode partir do princípio de que todo leitor acompanha o noticiário político; mesmo porque existem pessoas avessas à política e que não acompanham esse tipo de noticiário.

Outro exemplo, também da Folha; desta feita, impressa:
“Sobrinha do estilista Yves Saint Laurent revisita seu altos e baixos em livro” (Folha impressa, sábado, 7 de março de 2026, página B4).
Altos e baixos de quem: de Yves Saint Laurent ou dela própria?
Ao longo da matéria, sabe-se que os altos e baixos são relativos ao estilista. Mas e se o leitor estiver apressado e ler apenas a manchete?
Ainda quando não dá ambiguidade, o possessivo seu é, na maioria das vezes, dispensável e, em alguns casos, enfeia a frase, por torná-la sibilante, como no exemplo:
“O caçula Ted [Kenedy] foi o único dos filhos homens que morreu velho, em 2009 (…). Nunca conseguiu explicar muito bem o acidente de carro causado por ele e que ceifou a vida de sua suposta amante” (FolhadeSãoPaulo impressa, 28 de março de 2026, página B7).
Ora, esse sua é dispensável, além de causar uma sibilância.
Redação estilisticamente melhor:
(…) Nunca conseguiu explicar muito bem o acidente de carro causado por ele e que ceifou a vida da suposta amante.
ATENÇÃO!
Virou “moda” usar o possessivo seu de forma inútil, como no exemplo:
A Constituição Federal, no seu artigo 54, fixa as competências do Presidente da República.
Para que o seu?
Deve-se dizer (e escrever):
A Constituição Federal, no artigo 54, fixa as competências do Presidente da República.
E, para encerrar, mais um exemplo, no mesmo sentido, também extraído da FolhadeSãoPaulo (impressa), de 06 de março de 2026, página B13:
“Em vez de amigos, Kleber Mendonça filho tem apenas seus bajuladores”.
Redação estilisticamente melhor:
Em vez de amigos, Kleber Mendonça Filho tem apenas bajuladores.