Recentemente, galvanizou minha atenção a leitura de “Sempre Paris – crônicas de uma cidade, seus escritores e artistas”¹ , de Rosa Freire de Aguiar. A autora aportou na cidade luz para trabalhar como redatora freelancer da Revista Manchete em 1973, numa época – como frisou – na qual ainda não tinha sido inventada a mala com rodinha e o jornalista tinha como instrumento de trabalho a máquina de escrever.
O livro – dividido em duas partes autônomas – inebria o leitor com uma visão parisiense, transpondo-o num sonho do qual não se quer acordar, através de suas livrarias, cafés, restaurantes, costumes² . Quanto a estes, um primeiro e principal mandamento, sacrossanto e inviolável, é o da liturgia culinária, segundo a qual uma boa refeição não pode ser consumida em menos de duas horas. O seu cumprimento é inflexível, tanto que se a polícia estiver à procura de alguém que se encontra a curtir um bom almoço ou jantar, somente poderá prendê-lo ao instante em que este cruzar os talheres. O segundo, é a valorização da literatura, sendo o principal item do orçamento cultural do francês o gasto com livros. O livro, para o francês, é um gênero primeira necessidade, competindo com o melhor dos queijos e a aspirina.
O interessante é que, mesmo longe da pátria-amada, as fontes jornalísticas da autora lhe municiaram sobre as estripulias de autoridades do governo militar na França, não sem antes um golpe de coincidência ter lhe permitido testemunhar o que seria um romance – se não sob o véu do secreto, terrivelmente apaixonado – entre um prestigiado ministro do governo francês e uma bailarina, a mostrar que Degas tinha razão.
A segunda parte – igual e especialmente imperdível – está devotada a entrevistas com personalidades do mundo artístico, literário e político.
Uma dessas conversas, realizada com Júlio Cortázar, persona non grata seja para o populismo de Perón como para a ditadura militar implantada na Argentina pelo golpe de 1976.
Pude perceber que as datam podem dizer tudo. É que a publicação do colóquio ainda se mantinha inédita, o que não é comum para o jornalismo. A explicação é simples. Recuando ao ano de 1978, as críticas do autor de “O jogo da amarelinha” e de maravilhosos contos aos regimes militares da América Latina não seriam bem recebidas pela censura tupiniquim.
Falou Cortázar das agruras do degredo que vivenciava. Afirmou que muito mais do que uma distância física do o seu país mais lhe afetava o exílio cultural, pois extremamente doloroso para um escritor que trabalha numa estreita relação com o seu contexto nacional e sua línguaver destruída a ponte que o ligava a seus compatriotas, leitores e críticos. Mais uma vitória do regime ditatorial, a de cortar o país de sua cultura.
Mas como Pernambuco ocupa uma posição de centralidade no cenário mundial, não é possível esconder a felicidade quando, no curso das perguntas, Cortázar referiu-se, mais de uma vez, a Osman Lins, cujo centenário transcorreu no ano passado, inclusive ao romance Avalovara, que terminara de ler em edição francesa, situando o pernambucano como um dos maiores escritores brasileiros do seu tempo, ao lado de Guimarães Rosa, Érico Veríssimo e Clarice Lispector.
E viva a literatura!
[1] Companhia das letras: São Paulo, 2023.
[2] Prova de que o elogio não é uma exageração fortuita reside no fato da obra haver conquistado o Prêmio Jabuti em 2024, na categoria Livro do Ano.