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Hermes de Luna

O jovem de Araruna sonhava em voar alto, desde cedo. Apaixonado por avião, descobriu logo os segredos dos motores, turbinas e manche. Também descobriu os caminhos mais estreitos da política e virou um gigante, do seu jeito, seguindo os passos do seu avô Zé, e do seu pai Benjamin. Araruna estava pronta para entregar a história política do Brasil um jovem e promissor político que, apesar de ser um amante confesso do Brejo, já espalhava a fama do Litoral ao Alto Sertão. Era um tal de Zé de Beja.

Virou “Mestre de Obras” por uma frase infeliz forjada por marqueteiros de seus adversários. Foram os “cassistas” que se referiram pejorativamente a Maranhão, candidato à reeleição, para rebater indagações sobre as obras que estavam sendo entregues pelo governador. Nas palavras dos adversários, Maranhão não era autor, mas, no máximo, um mestre de obras. Foi o bastante. Uma aula de transformar um limão numa limonada. Providenciaram um colher de pedreiro e os aliados recepcionavam Maranhão pelo interior entregando-lhe essa ferramenta. Maranhão absorveu de imediato o discurso, enfatizando sempre que era humilde e reconhecia o trabalho árduo dos pedreiros, “mestres de obras”como ele.

Para chegar a esse degrau de político experiente e um jogador de xadrez pragmático, Zé de Beja percorreu uma longa trilha. Foi deputado estadual pelo PTB, aos 22 anos; foi cassado pelo regime militar e ingressou no MDB; retornou à legenda, já como PMDB, a partir do início da redemocratização; esteve na resistência e foi decisivo na construção do maior partido do Brasil. Rivalizava com a Arena, na época do bipartidarismo. Foi berço das legendas de esquemas com o pluripartidarismo.

Maranhão manteve-se no PMDB e fez parte de uma linhagem única e nobre da política. Podia até não ser um grande orador, mas era habilidoso e trabalhava nos bastidores com mesma desenvoltura do campo de pragmatismo, onde somente as grandes lideranças conseguiam atuar. Era da mesma linhagem de Humberto Lucena (paraibano e presidente histórico do Senado), Raimundo Asfóra, Ronaldo Cunha Lima e Antônio Mariz. Também se alinhava nesse time o cajazeirense Bosco Barreto, que arrastava multidões para ouvi-los. Eram a linha de frente dos emedebistas paraibanos reverenciados pelas lideranças nacionais.

Deputado estadual, deputado federal, governador e senador da República. Pode onde passou, Maranhão deixou sua marca, como político e como administrador. Já tinha ficado para trás o Zé de Beja. Era o Zé Maranhão, o mestre de obras, com assinatura própria desde que assumiu o mandato de governador quando Antônio Mariz faleceu. Maranhão foi um deputado federal constituinte e teve atuação na média da Câmara Federal da época. Foi escolhido vice de Mariz pela história dentro do partido e pela amizade pessoal com o político de Sousa, que pregava seriedade e transparência na gestão.

No cargo de governador, Maranhão decolou. Mostrou sua personalidade como chefe do Executivo estadual e ganhou de presente a aprovação da emenda que permitiu, pela primeira vez, a reeleição ao governo. Todos sabem dessa história recente. Um capítulo à parte nos 66 anos de vida política do José Targino Maranhão. Zé, que foi vitimado pelo mais traiçoeiro e silencioso dos adversários – um vírus – ajudou a escrever a história da Paraíba e era o último desse quinteto fantástico do MDB, com Asfóra, Humberto e Ronaldo e Barreto. Como piloto de avião, ele soube atravessar nuvens pesadas e deixou um legado impagável para as novas lideranças. Morreu sem nenhuma mancha no seu currículo político. Reconhecido homem do bem. Como questionou um adversário certa vez: “O que vou dizer de um cara que conserta avião no ar? “. Quando chamado, Zé deu um jeito na aeronave da política e por isso era um líder.

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