Moeda: Clima: Marés:
Início Colunas
Edilson Pereira Nobre Júnior

O acaso nunca deve ser subestimado. Não foram poucas vezes que um pormenor mudou radicalmente o rumo das coisas. Bom é quando tais mudanças são para o bem. Foi o que aconteceu comigo quando entrei na Livraria da Travessa, da Rua dos Pinheiros, procurando livros de autores sul-americanos.

Passando pelas primeiras prateleiras, guardiãs da literatura das terras lusitanas, despertaram a minha atenção vários livros de uma só autora, senão desconhecida, pelo menos não muito propalada. O seu nome, Agustina Bessa-Luís, não dizia muito. Porém, escrita em todos os diversos exemplares, a sua orelha esquerda mostrou-se assaz impressionante:

“Eu considero-a com Fernando Pessoa um dos dois escritores verdadeiramente geniais que Portugal produziu no século XX, e creio que todos os outros estão muito, mas muito abaixo deles. Mais, para mim a Agustina é o maior escritor em prosa de toda a literatura portuguesa” (António José Saraiva, in Antônio José Saraiva e Óscar Lopes: Correspondência).

Adquiri “Doidos e amantes” e, logo nas primeiras páginas, pude confirmar a impressão anunciada. Esbanjando no conhecimento das singularidades dos costumes portugueses, e com uma linguagem leve e rica em ironias, a autora escolheu para tema escândalo que teve como epicentro o processo “Doida, não”, iniciado nos albores da insegura e principiante república, em dezembro de 1918.

Daí uma profusão de personagens, na sua maioria famosos, traduzindo um aparente “quarteto” amoroso. Da mesma forma, uma mistura de assuntos, a envolver, desde o poder do jornal, uma passagem pela política, e, sem poupar o papel dos hospícios, e das artimanhas forenses na solução de problemas familiares, magnetiza a atenção do leitor de uma forma tal que lhe faz esquecer os desígnios do tempo.

Seria injusto – e até indigno – se bancasse o spoiler. Por isso, abstenho-me de adiantar sobre a trama principal, permanecendo nos pontos que compõem o recôndito, aliás, aquilo queé de meu costume visualizar nas grandes histórias e que, coincidentemente, sempre passa despercebido para a maioria dos leitores.Um bom exemplo éo parágrafo onde se refere a um tal António Oliveira no ano de 1902, pessoa modesta em Santa Comba Dão, cujo “filho era António Salazar, um rapaz de doze anos, acanhado e sisudo” (p. 207).

Isso, no entanto, não me impede de deixar de citar o narrador, Francisco Freire, ou o Freirão das Forças, ao observar que as mulheres não têm pecados, mas apenas aparências.

Vale – edemais – a pena descortinar os mistérios que se sobrepõem no curso da narrativa.


Edilson Pereira Nobre Júnior é magistrado, professor e terceiro ocupante da Cadeira nº 36 da Academia Norte Rio-Grandense de Letras – ANRL.

publicidade
publicidade
© Copyright 2024. Portal Correio. Todos os direitos reservados.