
Quem quiser entender, de maneira simples, direta e didática, o mundo do paraibano José Lins do Rego e a obra dele deve ler dois livros fundamentais do confrade da Academia Paraibana de Letras Eitel Santigo de Brito Pereira: “José Lins do Rego: Dois Estudos” (contendo os ensaios: “A Gloriosa Existência de José Lins do Rego Cavalcanti” e “Zé Lins e o Romance do Declínio do Engenho”); e “Menino de Engenho – Uma Análise Sociológica”; ambos publicados pela Editora Ideia.
Em Poesia e Vida (ensaios), Zé Lins afirma, a respeito da própria obra:
“Os cegos, os cantadores, amados e ouvidos pelo povo, porque tinham o que dizer, tinham o que contar. Dizia-lhes então: quando imagino meus romances tomo sempre como modo de orientação o dizer as coisas como elas surgem na memória, com o jeito e as maneiras simples dos cegos poetas”.
Esse espontaneísmo de Zé Lins é bem captado por Eitel, que assinala, nas páginas 47 e 48 do livro “José Lins do Rego: Dois Estudos”:
“José Lins do Rego Cavalcanti diferencia-se de muitos autores porque não encobre as nuanças autobiográficas de seus textos nem se preocupa em passar a impressão de ser mais inventivo do que os outros. Pelo contrário, ele sempre confessou, em seus discursos e entrevistas, a importância da memória na construção de sua literatura. Importância que se mostra mais acentuada nos livros da nominada série [Ciclo da Cana-de-Açúcar], pois neles o paraibano desenhou os cenários do Engenho Santa Rosa, pertencente a José Paulino, avô de Carlos de melo, reproduzindo, com fidelidade, as bonitas paisagens de outro engenho, o Corredor, onde o escritor nasceu, em 03 de junho de 1901 e onde viveu os seus primeiros anos.”

No volume “Menino de Engenho – Uma análise Sociológica”, o ensaísta Eitel justifica a temática, destacando, logo na Introdução, de forma mais do que elucidativa e convincente:
“Consciente da transcendência de conhecer a própria realidade, a comunidade investiga os textos dos seus literatos para desvendar os vestígios dos elementos históricos, geográficos e sociológicos contemporâneos à obra por eles produzida.
Isso se dá por uma razão cristalina. Os mencionados traços influenciam o autor na tessitura do enredo, na criação dos personagens, no relato dos fatos, na escolha da linguagem utilizada para se comunicar com os leitores.”
Como grande jurista que é, não escapou a Eitel falar sobre a injustiça na mediação dos conflitos, cuja denúncia é encontrada na narrativa de “Menino de Engenho” e toma como referência um episódio em que é evidente a parcialidade de certos “julgamentos”, quando estão envolvidas pessoas da classe dominante e dominada e o represente desta é o pretenso delituoso e réu.

E rememora o caso de Chico Pereira, acusado de desvirginar Maria Pia. A mãe da mulata fez a acusação, pediu providências ao Senhor de Engenho, o coronel José Paulino, e este mandou botar o cabra no tronco, até que aceitasse contrair o matrimônio.
O acusado, porém, recusou-se a casar, negando, peremptoriamente, a ofensa, mesmo diante de maiores e ferrenhas torturas.
Maria Pia, porém, acompanhada da mãe, procurou em certa tarde o coronel, que, diante de tanta negativa do negro, mandou a ofendida jurar em cima de um “livro santo” que mandara buscar no santuário. Com medo do castigo divino, Maria Pia “abriu o jogo” e entregou o Doutor Juca, filho de José Paulino e tio do menino de Engenho.
São dignas de nota as palavras do autor do ensaio, ao encerrar o capítulo:
“Eis como o patriarca José Paulino administrou o conflito. O branco Tio Juca, embora fosse o responsável pela violência sexual, não sofreu penitência alguma. Já Chico Pereira não teve reconhecida em seu favor a presunção de sua inocência. Submeteram-no à tortura. Era negro, ex-cativo ou descendente de escravo. Por isso, pagou (…) por uma falta cometida por outrem”.
Ligação sentimental de Eitel com o mundo de Zé Lins
“O meu interesse pelo livro [Menino de Engenho] talvez tenha surgido de uma circunstância bem pessoal. Zé Lins criou-se no Engenho Corredor, que pertenceu aos avós dele e fica na Várzea do Paraíba. Eu também sou neto, pelo lado materno, de senhores de outro engenho, oTibiri, situado na margem do importante curso d’água que também atravessa o território do município de Santa Rita.
Em muitos aspectos, quase tudo nos banguês corria de modo semelhante. Por isso afirma-se que o Corredor serviu de inspiração a Zé Lins, para retratar a vida do imaginário Engenho Santa Rosa”.
Sobre o autor
Eitel Santiago de Brito Pereira é escritor, advogado, professor da UFPB, membro do Ministério Público Federal (Subprocurador-Geral da República),da Academia Paraibana de Letras (APL), da Academia Paraibana de Letras Jurídicas (APLJ) e de outras entidades culturais.
Em 2021, quando das comemorações dos 120 anos do nascimento doconsagrado romancista paraibano, publicou “José Lins do Rego: Dois Estudos”; e agora, em 2025,
“Menino de Engenho – Uma análise Sociológica”, registro de uma palestra feita em 2024, no simpósio “Da Bagaceira ao Mel”, promovido pela Fundação Casa de José Américo.
Nota final
As duas obras destacadas neste artigo serão relançadas, ainda em setembro, aqui, em João Pessoa, numa reunião da Academia Paraibana de Letras Jurídicas, em data e horário ainda não definidos.
A convite do autor, terei a honra de fazer a apresentação.
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