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Edilson Pereira Nobre Júnior

Não foi uma infância fácil. Muito menos a juventude. Sua mãe, a Adalgisa, que Deus concedeu a virtude de ser terna quanto bela, faleceu aos vinte oito anos de idade, vitimada pela tuberculose. Sei pai, Alberto Raposo, o Raposão, neutro em virtudes, era um pândego. Exímio no violão quanto na apreciação do sorriso indolente das mulheres de vida fácil, reinava nas madrugadas, tal como fosse no país do desejo. Óbvio que falecera aos trinta e cinco anos de uma cirrose hepática. Da vida restara ao garoto Ismael suas tias maternas, Alice e Ana, solteironas por vocação e religiosas por amor, as quais elegeram como prioridade a educação do sobrinho.

Daí que, desde cedo, Ismael teve a sua sorte confiada a um internato religioso, sob a direção de monges beneditinos, do qual somente saiu para cursar medicina. Já formado, a sorte prosseguiu com a celebração de núpcias com Joana Barroso, primeira e única mulher a quem cerimoniosamente beijou até perfazer as bodas de prata.

Passado esse período de uma retilínea vida conjugal, Ismael se viu imerso num turbilhão que revolucionou a sua vida. Foi quando, numa livraria, deparou-se com Betina, vendedora, mas sobretudo uma baiana de bom coração. Doravante todos os dias, ao depois do almoço em lugar próximo, Ismael retornava ao estabelecimento do comércio de letras, para o fim de procurar as novidades literárias.

É certo que Ismael sempre foi um apreciador da boa literatura, mas a voracidade com que passou a procurar os títulos despertou uma forte desconfiança, cujo real sentido não escapou à argúcia feminina.

Tanto foi assim que a timidez de Ismael, que se aparentava inabalável, sucumbiu numa tarde chuvosa diante do olhar faceiro e juvenil de Betina. O resultado foi a derrocada do lar que edificara com Joana Barroso e, de conseguinte, a abdicação incontinente da imensa fortuna que aquela há pouco recebera de seu genitor, na qualidade de herdeira única e universal.

Mas, o que fazer, se o dinheiro nem sempre é o quetorna as pessoas felizes.

Edilson Pereira Nobre Júnior é magistrado e professor

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