Todas as vezes em que passo por Catingueira e vejo a estátua de Inácio, lembro o quanto somos – nós, os paraibanos – ingratos com a memória de nossos grandes poetas. Sim, porque não são só os poetas de renome ou que têm livros escritos os que merecem ser referenciados (e reverenciados). São, também, merecedores do nosso respeito os poetas de bancada, os violeiros… os repentistas, de um modo geral.
Inácio tem renome e é respeitado em todo o Brasil, tendo merecido estudos de Graciliano Ramos, Veríssimo de Melo, Rodrigues de Carvalho, Câmara Cascudo, Padre Manuel Otaviano, entre outros. Mas são estudos do passado. Recentemente, pouco se fala de Inácio. As publicações, em livro, mais recentes (comparando-se com as citadas) foram as do nosso confrade na Academia Paraibana de Letras Luís Nunes (1979) e Orígenes Lessa (1982); este último mostrando um aspecto muito importante: além da genialidade, Inácio denunciou, inconscientemente, o racismo existente no Brasil, na época dele; o preconceito tem continuidade, embora de forma mais velada, nos dias de hoje. O nome de Inácio é tão importante que é citado até na Enciclopédia Delta Larrousse, fato que muitos paraibanos desconhecem.
No intuito de informar às novas gerações, falemos um pouco sobre Inácio da Catingueira e, principalmente, da célebre peleja com Romano de Mãe D’água, também conhecido como Romano do Teixeira, principal contendor do dele.
Nasceu Inácio em Catingueira, cidade do sertão da Paraíba, em 1845, tendo morrido lá, segundo versões mais aceitas, no ano de 1879. Era negro, escravo, mas tinha a admiração de toda a Catingueira; inclusive a do senhor dele, que não se opunha ao seu viver poético; até facilitava os deslocamentos para as pelejas e desafios.

Numa dessas pelejas, no ano de 1874 ou 75, segundo Orígenes Lessa, à luz do Padre Otaviano, via Luís Nunes, Inácio enfrenta Romano, constituindo-se essa numa das contendas mais citadas da literatura oral brasileira.
Romano, apesar de não ser branco, levou o embate para o lado do racismo, sempre agredindo Inácio, citando a coloração negra e a condição de cativo do negro catingueirense. Na passagem que considero mais genial do poeta do Vale do Piancó, ele bota Romano “no bolso”. Vamos aos versos:
Romano:
A desgraça de home rico
É dar importância a pobre,
Sendo eu a prata fina
Vim me misturar com o cobre,
Grande castigo merece
Quem se abate sendo nobre.
Inácio:
Esta agora é engraçada,
Eu digo com toda fé;
De prata se faz arreio,
Faz faca, garfo e cuié,
De prata se faz espora
Pra nego botar no pé.
O mais “interessante” de toda a história é que Romano não era branco. Inácio, então, não perdoa:
O sinhô me chama nego,
Pensando que me acabrunha,
O sinhô de home branco
Só tem os dente e as unha.
A sua pele é queimada,
Seu cabelo é testemunha.
Viva Inácio da Catingueira!Um poeta que orgulha o nosso sertão e a Paraíba.