Dentre os grandes amores da literatura brasileira, o mais comovente e mais cheio de sofrimento, dada a insistente presença antagônica do destino, foi o amor que sentiu o poeta Antônio Gonçalves Dias, maranhense, nascido no sítio Boa Vista, a 14 léguas da cidade de Caxias, e Ana Amélia Ferreira do Valle, também do Maranhão.
Ano de 1845. Antônio Gonçalves Dias, recém-formado bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra, tendo regressado ao Brasil vai a São Luís, para rever seu velho amigo Alexandre Teófilo, que, inclusive, o ajudara, financeiramente, quando estava na Europa. Lá, na casa de Alexandre, onde passa cinco meses, conhece as cunhadas e primas deste, Ana Amélia, Inês e Lúcia.
Se você não acredita em amor à primeira vista, certamente o fará agora. Gonçalves Dias, na época com 22 anos, apaixona-se, perdidamente, pela pequena Ana Amélia, de apenas 14 anos, e transforma-a, a partir de então, na sua musa eterna, o amor da sua vida; ou, pelo menos no dizer de Péricles Eugênio da Silva Ramos, “aquela de suas inspiradoras que dele tiraria as notas sentimentais mais veementes”. Foi tal a impressão causada pela garotinha de olhos negros ao poeta, que, nessa ocasião, escreveu para ela: “Leviana”, “Mimosa e Bela” e “Seus Olhos”; esta última, conforme afirmam todos os seus biógrafos e os nossos grandes literatos, de mais alto nível.
Nesse mesmo ano, em 14 de junho, embarca para o Rio de Janeiro, onde passa cinco anos e publica seus três livros de cantos, que lhe consagram no país e fora dele; inclusive, recebe de Alexandre Herculano o título de “grande poeta”.

1851. Parece que o destino teima mesmo em colocar no caminho de Gonçalves Dias a jovem Ana Amélia. Recebe a incumbência de estudar a instituição pública das Províncias do Norte e de colher documentos históricos nos arquivos da Bahia, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Maranhão e Pará. Chegando a São Luís, revê Ana Amélia, não mais aquela garotinha de olhos negros e reluzentes, mas uma moça feita, parecendo-lhe aos olhos mais bonita que antes; a mulher mais bonita do mundo. Não pode evitar: reacende-se-lhe a antiga paixão e vem-lhe à cabeça a ideia de casar. Depois de ter estado no Pará, cerca de um mês, volta à casa do amigo Alexandre e manda, através de carta, a dona Lourença, mãe de Ana Amélia, que está em Alcântara com a filha, pedir a moça em casamento, solicitação prontamente recusada, por questões financeiras e, sobretudo, raciais: ela era branca; ele, produto racial mesclado de pai português e mãe, segundo Fábio Freixieiro, possivelmente cafusa.
A solução dada para o caso o abala completamente. Está em Recife, quando recebe a notícia. Então, cheio de tristeza, escreve o poema “Se se Morre de Amor”. Depois disso, ainda encontra com a amada, que insiste com ele para fugirem, mas, em atenção a Alexandre Teófilo, ele não aceita. Essa atitude será, mais tarde, a causa de um remorso perpétuo, como provam alguns versos do “Ainda Uma Vez – Adeus!”, que dizem:
“Pensar que o teu destino
Ligado ao meu, outro fora,
Pensar que te vejo agora,
Por culpa minha infeliz;
Pensar que a tua ventura
Deus ab eterno a fizera,
No meu caminho a pusera…
E eu, eu fui que a não quis!”
E, mais na frente:
“Perdão da minha miséria,
Da dor que me rala o peito,
E se do mal que te hei feito,
Também do mal que me fiz!”
Faz, então, um casamento por conveniência e o exemplo é seguido por Ana Amélia. O matrimônio da moça, imitando seu ato, é, também, motivo de remorso do poeta em “Como! És tu?”:
“E vais! e és tu mesma? – e vais!…
Fui eu quem te dei o exemplo…
Sei que te aguardam no templo,
Deixa-me aqui a chorar:
Fazes somente o que eu fiz,
Não fazes mais que imitar!”
Daí pra a frente, passa, então, a cuidar da sua nova vida com a esposa. Em 1884, parte, novamente, para a Europa, ficando até 1858.

É na Europa que o destino prega a maior peça reservada para o poeta. Em maio de 1855, tem um encontro casual com Ana Amélia Ferreira do Valle, que, um mês depois de casada, parte com o marido para Portugal, em virtude de esse ter quebrado fraudulentamente, sendo obrigado a voltar para sua terra de origem, Lisboa, para não ser preso. Nessa ocasião, Gonçalves Dias escreve, entre 18 e 21 de maio de 1855, “o mais comovente e comovido poema de amor de toda a sua obra, na expressão deum dos seus maiores estudiosos, o poeta Manuel Bandeira: “Ainda Uma Vez – Adeus!”.
“Ainda Uma Vez – Adeus!” pode ser considerado um poema-vitae. Nele, Gonçalves Dias conta, detalhadamente, a história desse amor infrutífero que foi, também, a história de sua vida. Conta da surpresa de reencontrar a amada, da dor paradoxalmente ressuscitante que o encontro provoca, as pessoas que se meteram no amor dos dois e conta, sobretudo, do remorso que o atormenta; indubitavelmente, a faceta mais acentuada do poema, por ter contribuído, decisivamente, para a destruição do amor, embora deixe transparecer a sua inocência nas atitudes passadas, terminando por oferecer (já que não podia fazer mais nada), os versos “D’alma arrancados/D’amargo pranto banhados/com sangue escritos…”.
Depois desse encontro, ainda chegou a escrever poemas para ela: “Oh, que acordar!”; “Se muito sofri já não me perguntes”; “No jardim”; “Se te amo, não sei”; “A baunilha” e “Como, és tu?”, numa prova de que jamais chegou a esquecê-la. E quem sabe pensava nela naquele 3 de novembro de 1864, no momento em que o “Ville de Boulogne”, navio que o trazia à sua terra, naufragou, nos Baixios dos Atins, próximo ao Farol de Itacolomy, na costa maranhense, matando-o, única vítima do naufrágio.
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