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Professor Trindade

Embora estranhamente esquecido no mundo literário paraibano, José Vieira foi um dos mais importantes romancistas do estado, sendo, sem dúvida, da mesma estirpe de José Lins do Rego ou de José Américo de Almeida.

Não é à toa que, acerca da obra dele, afirmou o autor de “Fogo Morto”, em crônica no Jornal “O Globo”, de 9 de julho de 1948:

“Era estudante quando li no ‘Diário do Estado’ de Paraíba, um artigo de José Américo de Almeida sobre um livro novo, ‘Sol de Portugal’, de autoria de José Vieira. Nada sabia do escritor, mas o livro que José Américo me deu a ler convenceu-me do entusiasmo do amigo. Era um admirável paisagista aquele que se embriagara com a cor e a luz das terras de Nobre. Nunca lera, a não ser em Eça de Queiroz, trechos mais vivos, mais coloridos sobre as aldeias, os vinhedos, as praias de Portugal. Tinha razão José Américo. Havia um escritor magnífico em José Vieira”.

Vida e Aventura de Pedro Malasarte: O romance consagrador

O leitor(a) certamente enxergará uma contradição em meu escrito, quando afirmo ser Vieira esquecido e falo, agora, em “romance consagrador”.

Contradição apenas aparente, porque o grande José Vieira, embora esquecido na própria terra, foi nacionalmente consagrado. Destacaram a grandeza de sua obra, além dos autores já citados, Antônio Cândido, João Ribeiro, José Veríssimo, Agripino Grieco, Alceu Amoroso Lima, Wilson Martins, Oswald de Andrade,entre outros.

O romance Vida e Aventura de Pedro Malasarte, de José Vieira narra as peripécias do jovem de origem humilde que, depois de acusado injustamente por um delito que não cometeu, deixa, para fugir da população perseguidora, a vila de Santa Cruz,sendo, então, abandonado à própria sorte, passando a enfrentar inúmeros obstáculos. Com aguçado bom humor e soluções inacreditáveis para os problemas que lhe aparecem, o astuto Pedro percorre diversos povoados. Assim, um rico cenário é composto, retratando a sociedade da época.

O personagem Pedro Malasarte tem origem na tradição ibérica, mas no romance de José Vieira é adaptado à realidade paraibana e nordestina.

Até 2023, não havia edição atualizada de “Vida e Aventura de Pedro Malasarte”; existia apenas a 2ª edição – 1980 – (de que extraímos o excerto aqui publicado), em fac-símile, pela editora “A União”, mas com o incômodo da desatualização da ortografia, o que, de certa forma, afugenta o leitor; sobretudo, os mais jovens.

Em 2023, a editora Edusp – da Universidade de São Paulo – publica, em parceria com a editora laboratório Com-Arte, o romance, na coleção Reserva Literária.

Nascimento e morte

José Vieira nasceu em 23 de março de 1880, em Mamanguape e morreu no Rio de Janeiro, em 8 de julho de 1948.

Obras

A CADEIA VELHA (Memória da Câmara dos Deputados). Jacinto Silva, Rio de Janeiro, 1913.

SOL DE PORTUGAL (Chronica da Beira Alta). Revista dos Tribunais. Capital Federal – na época, Rio de Janeiro –, 1918.

O LIVRO DE THILDA (romance). Edição do “Annuário do Brasil”. Rio de Janeiro, 1923.

LADRÃO DE MOÇAS (novela). Suplemento de “Era Nova”, junho/julho de 1924. (Números 64 e 66 da revista). Parahyba.

O BOTA ABAIXO (Chronica de 1904). Vida Brazileira. Selma Editora. Rio de Janeiro, 1934.

ESPELHO DE CASADOS (romance). Livraria José Olympio Editora. Capa de Santa Rosa. Rio de Janeiro, 1932.

ROMANCE DA SOLTEIRA (romance). In “Revista Brasileira”, ano I, nº 1, 1941 a Ano II, nº 4, 1942. (Publicação da Academia Brasileira de Letras). Rio de Janeiro.

VIDA E AVENTURA DE PEDRO MALASARTE (romance). Livraria José Olympio Editora. Capa de Santa Rosa. Rio de Janeiro, 1944.

UM REFORMADOR NA CIDADE DO VÍCIO (romance). Livraria José Olympio Editora. Capa de Santa Rosa. Rio de Janeiro, 1948.

Tradução:

A DAMA DE CRYSTAL, do dr. Lucien-Graux. (Romance das Montanhas Chilenas). Tradução de José Vieira e H. Capistrano. Publicado como folhetim, no rodapé do “Correio da manhã”, Rio de Janeiro, durante 61 dias, na década de 1930.

Vida e Aventura de Pedro Malasarte – trecho escolhido

(…) – Que gente é essa?

– O mágico mais a senhora.

– Mágico, que mágico?

– Eles são espanhóis e já cá estiveram.

Um mágico… Pedro assanhou-se todo. Assanho encoberto, que a cidade ocontinha quanto o sertão voltava. Mas comia o casal com as pupilas ardendo. Tocou-lhe – ele, criado – ouvir mais que o patrão, da boca do mágico. Depois de cear, ele vai à estribaria, Pedro seguindo-o. Não que esperasse gorjeta como em Corema. Pedro alojara os animais, movido pela novidade e pelo trato a dar ao seu. Ouvindo, antes de ver, a tritura do capim nos dentes como uma serra única, a ir e vir ritmada, o mágico já penetrou na estribaria bem disposto e, vista a disposição dos três animais na baia sem outros, tirou deles os olhos para os por no tratador.

– Você – disse contente – entende de cavalos.

Pedro não se fez de modesto:

– Trato desde meninote; gosto deles, e esse aqui é meu.

– De você?

– Há que tempo!

O mágico duas vezes contente:

– É honroso.

Pedro baba-se de regozijo. O hespanhol, esquecendo o mágico:

– Da outra vez que cá estive não trabalhava você na casa…?

– Ainda não.

– E o que fazia?

– Corria terras.

– Corria terras…

– Tratando da vida.

– Da vida? Por qual modo?

– Com o que ia aprendendo.

– É você artífice?

– Sou tudo.

– Engenhoso. Mas onde, com quem aprendeu você?

– Com mestre mundo.

(…)”.

(Foi mantida a ortografia original).

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