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Professor Trindade

Só mesmo um poeta da estirpe de Antônio Cícero para usar tal expressão numa carta, antes de suicidar-se.

Ele, que estava com alzheimer, optou pelo suicídio assistido, na Suiça, onde tal prática é admitida.

Antônio Cícero foi, sem dúvida, um dos maiores poetas e letristas da literatura brasileira, e morreu nesta quarta-feira (23), com 79 anos. Nos últimos anos, recebeu diagnóstico de Alzheimer e passou por diversas internações.

Após sofrer com o exílio, na época da ditadura militar, Cicero se tornou um dos poetas mais renomados do país e escreveu letras de muitas das principais canções da música popular brasileira, como a famosa “O Último Romântico”, celebrizada na voz de Lulu Santos. 

Entre seus poemas mais famosos está “Guardar” (ver a sessão “Momento de poesia”), que faz parte de uma coletânea homônima. 

O poeta é autor dos livros de poemas “A Cidade e os Livros” e “Porventura”; e de obras ensaísticas como “Finalidades sem Fim”, que foi indicado ao Jabuti. 

Em comovente carta deixada aos amigos, escreveu: “Como sou ateu, tenho consciência de que quem decide se minha vida vale a pena ou não sou eu mesmo”. “Espero ter vivido com dignidade e espero morrer com dignidade.”, finaliza.

Momento de poesia

Poemas de Antônio Cícero

Guardar

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. 
Em cofre não se guarda coisa alguma. 
Em cofre perde-se a coisa à vista. 

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por 
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado. 

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por 
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, 
isto é, estar por ela ou ser por ela. 

Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro 
Do que um pássaro sem voos. 

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, 
por isso se declara e declama um poema: 
Para guardá-lo: 
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda: 
Guarde o que quer que guarda um poema: 
Por isso o lance do poema: 
Por guardar-se o que se quer guardar. 

O Último Romântico

Faltava abandonar a velha escola
Tomar o mundo feito Coca-Cola
Fazer da minha vida
Sempre o meu passeio público
E ao mesmo tempo fazer dela
O meu caminho só, único
Talvez eu seja o último romântico
Dos litorais desse Oceano Atlântico
Só falta reunir a Zona Norte à Zona Sul
Iluminar a vida, já que a morte cai do azul
Só falta te querer
Te ganhar e te perder
Falta eu acordar
Ser gente grande pra poder chorar
Me dá um beijo, então
Aperta a minha mão
Tolice é viver a vida assim
Sem aventura
Deixa ser, pelo coração
Se é loucura, então
Melhor não ter razão
Só falta te querer
Te ganhar e te perder
Falta eu acordar
Ser gente grande pra poder chorar
Me dá um beijo, então
Aperta a minha mão
Tolice é viver a vida assim
Sem aventura
Deixa ser, pelo coração
Se é loucura, então
Melhor não ter razão
Me dá um beijo, então
Aperta a minha mão
Tolice é viver a vida assim
Sem aventura
Deixa ser, pelo coração
Se é loucura, então
Melhor não ter razão.

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