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Edilson Pereira Nobre Júnior

As paixões nem sempre vivem de equívocos. Quando tardias, se lhes faltam o incendiário, ganham em ternura e prazer.  O mesmo se passa com a leitura. Ítalo Calvino[1] explicitou que a juventude comunica ao ato de ler, como qualquer outra experiência, um sabor e uma importância particulares, enquanto que, diversamente, na maturidade apreciam-se muitos detalhes, níveis e significados a mais.

Se a circunstância de, quando jovem, haver assistido, por várias vezes, ao filme, nas suas mais diversas versões, as tarefas que o passar dos anos me impôs me privaram da leitura de “Os miseráveis”, o que foi amenizado pela análise de Vargas Llosa em “A tentação do impossível”[2].

Porém, as economias de tempo me proporcionaram o acesso ao deleite extraordinário da leitura de “Os trabalhadores do mar”[3], “O último dia de um condenado”[4], “Do grotesco e do sublime”[5],  “O corcunda de Notre-Dame”[6], e, por indicações de Humberto Eco[7], “O noventa e três”[8] e “O homem que ri”[9].

Então, é de se perceber que Hugo, invertendo uma constante desde a Antiguidade, na qual o herói sempre foi belo, mostra-nos que o grotesco é a outra face do sublime, isto é, aquilo que de mais rico pode a natureza oferecer à arte. Daí que Quasímodo – e não Claude Frolo ou Phoebus – é aquele que é possuidor de uma enorme capacidade para amar. Da mesma forma, faz de Gwynplaine, Ursus, Dea, Gilliat, Lantenac, Jean Valjean, expressões do espírito humano mais puro.

Hugo, a partir de sua afirmação de que “A arte dá asas e não muletas”[10], desenhou um mundo mágico, onde a fantasia mescla-se inconfundivelmente com o real. E assim fez por que o romancista é, nalgumas vezes, muito mais exímio e preciso do que o historiador, porquanto o seu ato de criação é baseado em pessoas reais, de carne e osso.

Nos tempos que correm, que muitos denominam de “bicudos”, a natureza dinâmica da sociedade fez com que emergisse uma nova ágora, muito diferenciada das praças das cidades gregas. Se, num contínuo, sobreveio o livro e, depois, o jornal, o debate público migrou para as redes sociais. A revolução dos cliques, que lhes impulsiona, lamentavelmente deu lugar a um fenômeno que pode ser descrito como um excesso de informações e uma escassez de reflexão.

Com isso, a crítica perde a sua maior virtude, a qual, como disse Machado de Assis, é a tolerância, pois: “A intolerância é cega, e a cegueira é um elemento do erro; o conselho e a moderação podem corrigir e encaminhar as inteligências; mas a intolerância nada produz que tenha as condições de fecundo e duradouro”[11].

A política que, no dizer de Hanna Arendt[12], baseia-se justamente na pluralidade dos homens, tendo como sentido a liberdade, é assim afetada no que lhe é de mais precioso.

E, como se não bastasse, essa realidade nos atinge, conforme observou José Paulo Cavalcanti: “Há um rio que separa os brasileiros. E é preciso remar, ao contrário desse rio, para chegar ao Riacho do Navio de nosso futuro redentor”[13].

Quem sabe esse remar venha a ter a literatura como sua bússola.

Talvez assim possamos ser mais Gravoche do que Javert.


Edilson Pereira Júnior é magistrado e professor. O texto foi extraído de tópico do discurso de posse do autor na Cadeira nº 36 da Academia Norte-Rio-grandense de Letras. 

[1]Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 12.

[2]Rio de Janeiro: Editora Alfaguara, 2013. Tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman.

[3]São Paulo: Nova Alexandria, 2002. Tradução de Machado de Assis.

[4]São Paulo: Estação Liberdade, 2022. Tradução de Joana Canêdo.

[5] Trata-se, na verdade, do prefácio de Cromwell, traduzido para o português por Célia Berrettini (São Paulo; Perspectiva, 2012).

[6]Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2015. Tradução de Jorge Bastos.

[7]São eles: Confissões de um jovem romancista (Rio de Janeiro – São Paulo: Editora Record, 2018, pp. 98 e 115) e Construir o inimigo e outros escritos (Rio de Janeiro – São Paulo: Editora Record, 2021, pp. 153-159).

[8]Zero papel (edições digitais), 2012.

[9] São Paulo: Martin Claret, 2020. Tradução e notas de Regina Célia de Oliveira.

[10]Do grotesco e do sublime. São Paulo: Perspectiva, 2010, p. 63. Tradução de Célia Berrettini.

[11] O ideal do crítico. In: O jornal e o livro. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p. 14. Texto originalmente publicado em o Diário do Rio de Janeiro, edição de 08 de outubro de 1865. 

[12]O que é o político? Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2021, pp. 21 e 38. Tradução de Reinaldo Guarany. 

[13]Academia Brasileira de Letras – Discurso de posse – Cadeira 39. Rio de Janeiro, 10 de junho de 2022, p. 62.

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