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Professor Trindade

Acabei de fazer uma compra no supermercado e eis que escuto aquele barulho de uma cornetinha eletrônica: praaaammm praaaammm. E uma voz: “Ei, aqui em cima!… É o avião do circo”.

O pior é que, embora tenha fotofobia, fiquei olhando, em pleno sol a pino, o “teco-teco”; ainda o vi, ao longe, afastando-se, por entre as nuvens.

Continuei minha caminhada.

Quando cheguei na esquina de casa (moro perto do supermercado), eis o mesmo barulhinho, que se repete quase todos os dias. Agora com aquele famoso bordão: “últimos dias…”. Últimos dias que nunca chegam.

Desde pequeno, sou fascinado por circo. Na minha primeira infância, meu pai, por ser fiscal da prefeitura de Piancó, ganhava permanente e íamos, quase todos os dias – a família toda –, assistir ao espetáculo (“Hoje tem espetáculo, tem sim senhor”).

Eu tinha uns quatro anos.

Lembro que íamos para as cadeiras. As cadeiras eram pra gente chique; para a elite. Meu pai não era da elite financeira, mas era considerado da elite, por ser uma “autoridade”. E a gente sentava logo na frente, na primeira fila. Dava pra ver bem de perto os palhaços, os trapezistas, as dançarinas, o bode que subia numa cadeira e obedecia ao suposto domador…

Quando o circo foi embora de Piancó, chorei à vontade. Era consolado por minha irmã Nenen, que também adorava circo e escondia os olhos para que eu não visse que ela também estava chorando.

Para minha tristeza, meu pai morreu logo depois.

Não sei se pela morte do meu pai, ou pelos dois acontecimentos, ainda hoje (tenho 64 anos) choro quando tento entoar uma canção que dizia:

“Vai o palhaço dando cambalhotas…”.

Acho que essa música era incidental, inventada por eles, daquele circo mesmo, na hora, porque jáprocurei bastante no Google e não consigo achar.

São muitas minhas lembranças de circo.

Já maiorzinho, com uns 8 ou 10 anos, meu irmão mais velho me levou a um que tinha um palco giratório. Foi a coisa mais linda que já vi!… Encantei-me com o palco giratório; achei uma coisa maravilhosa, “do outromundo!”, e chorei com a encenação da peça “Coração Materno”: uma bela adaptação da música de Vicente Celestino: outra que não consigo escutar –ou cantar – sem chorar. Penaque no ano seguinte fui ao mesmo circo, que estava de novo em Patos, cidade em que eu morava na época, mas, lamentavelmente, a “modernidade” obrigou o circo a vender o palco giratório, para adquirir um “Globo da Morte”.

Até hoje não acho graça em “Globo da Morte”; acho um espetáculo perigoso, deprimente e angustiante.

Pois, é… A vida girou, o tempo passou, mas intimamente ainda sou aquele mesmo menino que adoraria sentar, toda noite, na fila da frente das cadeiras, para assistir a um espetáculo de um circo simples, sem as firulas e o artificialismo dos atuais.

E enquanto observo o avião do circo no ar, vejo no céu a imagem do meu pai, da minha mãe e sou um menino eternamente encantado com um mundo maravilhoso, de fantasia, que passou, mas teima em ficar.

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