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Professor Trindade

O amor por cantar me deu muitas alegrias, mas também algumas contrariedades e vergonhas.

Empolgado com meu primeiro sucesso no Cine Eldorado, quando contava seis anos (fecho os olhos e ainda me vejo vestido na indumentária de “rei”: manto vermelho e uma coroa, no “trono” preparado especialmente para o primeiro lugar dos calouros infantis) tornei-me frequente.

Os dois “cantores-mirins” que mais chamavam a atenção em Patos éramos eu e Euclides Franco. Mais tarde, apareceu Arlene Nóbrega; de modo que éramos espécies de “rivais”; mas apenas no palco.

Da segunda vez que me apresentei – e ganhei novamente – cantei “O Canudinho”, de Wanderley Cardoso, música da qual não consigo mais lembrar. Os tempos já eram mais difíceis e o festival do Cine Eldorado já não mais premiava como antes. Quando ganhei da vez anterior, cantando “Você me Acende”, sucesso de Erasmo Carlos, recebi como prêmio um anel do calhambeque, um pão-recife e a abertura de uma conta (contendo um valor bem generoso) no Branco Industrial de Campina Grande. Nessa segunda vez, porém, o prêmio foi um cinto elástico e uma lata de doce. Não havia mais cheques do Banco Industrial.

Os “Festivais da Alegria” no Cine Eldorado animavam os domingos de Patos. Havia Zeti, que cantava de forma engraçada e fazia todo tipo de munganga; havia o “mudo do cinema”, que todo domingo “cantava”. As guitarras de “Os Jovens” e “Os Selvagens” irrompiam, ruidosamente, executando “O Milionário”, música que me alivia o coração até hoje, quando a saudade da infância aperta. Não consigo ouvir “O Milionário”, sem que encha os olhos de lágrima. Lembra-me a minha eterna discussão com Rodrigues (guitarrista de “Os Jovens”), então namorado de minha irmã Terezinha; ele dizendo que Toinho, baterista de “Os Jovens” era melhor que Castelo, de “Os Selvagens”; eu, brigando por Castelo, de quem era fã. Achava Castelo melhor, porque dava mais breques; Toinho, no meu entendimento, era mais fraco, porque tocava mais cautelosamente.

A rivalidade entre “Os Selvagens” e “Os Jovens” era grande. O pior é que eu era amigo de Juca, líder de “Os Selvagens”, meu primeiro vizinho em Patos, e de quem ganhei um violãozinho de brinquedo (com cordas de liga) e de Rodrigues, com quem passava tardes e noites conversando. De modo que eu ficava nesse “fogo cruzado”. Mas não escondia minha preferência pela bateria de “Os Selvagens” e por “Os Jovens”, considerando-se o conjunto.

Mas nem tudo foi êxito para mim no Cine Eldorado. Após ser coroado, duas vezes, “rei”, de outra feita levei uma tremenda vaia. Até hoje culpo –  e com razão – minha timidez e medo de falar com pessoas que considero “autoridades” e “superiores” a mim.

O acontecido:

Tive a ousadia de interpretar “Django”, uma música que fez grande sucesso na bela voz de Berto Fia; a música era tema de um faroeste italiano homônimo. Ocorre que havia uma passagem que tinha um agudo muito forte e era preciso ter garganta. Escolhi um tom baixo, porque sempre cantei na baixa e pedi isso ao conjunto.

Nos ensaios, foi tudo bem; mas, na hora H o guitarrista pegou um tom muito alto. Eu poderia ter parado e dito: “O tom está alto; não foi esse o tom que ensaiei”. Mas, por timidez e por reverência – os componentes do conjunto eram bem mais velhos e amigos de meus irmãos – terminei não fazendo a advertência. Resultado: na hora do agudo, não aguentei e levei uma estrondosa vaia, sendo, por conseguinte, desclassificado.

Após esse “tranco”, houve uma pausa nos festivais e eu fiquei triste, porque precisava me recuperar do “fracasso”.

Enfim, surgiu uma nova oportunidade. Resolveram marcar um novo festival e me inscrevi para aquela que seria a minha recuperação: o meu triunfo.

“Não sei por que cargas dágua” o meu irmão Francisco implicava com tudo o que eu fazia e procurava, sempre que possível, atrapalhar meus projetos. Os ensaios eram organizados pelo pessoal da Rádio Espinharas e ele trabalhava na emissora. Disse que eu não iria ao ensaio e falaria com o pessoal da rádio para não me deixar ensaiar.

Mesmo assim, fui. O ensaio foi num clube no Belo Horizonte. Deslanchei. Talvez para provar que sabia cantar música difícil, “clássica” e que tivesse agudos (fiquei complexado com a vaia de “Django”). E para acabar de acertar, o pessoal do conjunto falou:

– Escolha outra música; essa você não vai aguentar…

-Vou sim; pode começar.

(A música era “Balada nº 7”, grande hit da época, cantada por Moacyr Franco).

Foi sucesso geral; o pessoal do conjunto ficou entusiasmado e, ao terminar a interpretação, todos me abraçaram.

Para minha tristeza, após o ensaio (foi no sábado, à tarde, e o festival era no domingo) veio a notícia de que o festival fora cancelado.

Afoguei minhas mágoas indo, de noite, ao Parque Lima, num passeio em que tive uma grande alegria:

Talvez com as premonições de coração de mãe, a minha, pela primeira vez, me deixou “andar” de roda-gigante…

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