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Professor Trindade

Foi o primeiro colégio no qual lecionei. 1975 era o ano. Eu tinha exatos 18 anos. Ficava na avenida Carneiro da Cunha, na Torre. Era um prédio bucólico. Antes do compartimento onde funcionava a escola, propriamente dita, havia um terreno enorme, cheio de árvores. De fora, era tudo muito escuro; viam-se, apenas, as luzinhas das salas, ao fundo do quintal. Havia dois lances de edificação: embaixo, salas de aula; em cima, a secretaria e, creio, outra sala de aula.

Fui levado para lá pela minha colega Doraci; sousense, muita amiga de todos nós, no bairro em que morávamos: Castelo Branco III. Criatura boníssima, de grande coração; pedagoga por natureza, amante da cultura, já dera emprego a outros dois colegas nossos: Ariobaldo (Ciências e Biologia) e Iran (Geografia). Aperreei Doraci para ela me arranjar uma vaguinha em Português e lá vamos nós falar com o diretor do colégio.

O diretor era o professor Francisco; um sujeito correto e rígido. Fazia questão de ser chamado de Doutor Francisco e se orgulhava de ser bacharel em Direito, professor e educador. Em todas as eleições, se candidatava a vereador e angariava uns poucos votos na Torre.

Dr. Francisco jogou um balde d’água:

– O quê? Esse menino, Doraci? Ainda mais para lecionar Português? Nem pensar… O Ginásio Paulo VI tem um nome a zelar. E, ainda mais, se eu fizesse essa loucura a Inspetoria Técnica cairia em cima de mim. Se fosse pelo menos outra disciplina!…

Voltei para casa, triste. Sentimental que sou, por pouco não chorei.

Um mês depois, uma centelha me acende nos olhos:

Iran, nosso colega comum – meu, de Doraci e Ariobaldo – diz que não quer mais dar aula:

– Topas, João? (Nesse tempo, eu ainda era João; ninguém me chamava Trindade).

Como não? Era o que eu mais estava esperando… Lecionar; qualquer matéria que fosse, ainda que fizesse sacrifício.

E lá vou eu “ensinar” geografia, uma matéria para a qual nunca tive qualquer aptidão; sempre era um tormento apontar nomes de rios e lagos, naqueles mapas com linhas fininhas.

Mas, além do mais, eu precisava de dinheiro. Nossa vida, no Castelo, era muito pobre.

Doutor Francisco aceitou a sugestão.

Doraci me disse:

– Prepare bem as aulas e siga, à risca, o “livro do professor”; sei que Português você sabe; mas Geografia… Estou temerosa.

E era não só para temer, como para tremer!

Minha carreira como professor de Geografia foi rápida e igualmente trágica. Dei uma “melada”, da qual nunca esquecerei e até hoje me envergonha.

Nunca consegui preparar uma aula; sempre li, rapidamente, o livro texto (quando lia). Depois que passei a lecionar Português, ficou tudo sem olhar uma linha na sala de aula; tudo vem na base de minhas leituras (essas sim, sistemáticas) diárias sobre a matéria.

Pois o costume de não preparar aula me custou caro.

Pois não é que um dia, me aparece uma usina hidrelétrica no Rio Paraíba?

Sem ter lido o texto, afirmei, peremptoriamente, que uma usina hidrelétrica iria ser implantada no Rio Paraíba, aqui no nosso estado.

Um aluno retrucou:

– Aqui, professor?

– Sim. Aqui. Sabe aquele rio que passa em Cruz do Espíríto Santo? É ele.

O aluno volta à carga:

– Estranho, professor!… Não saiu nada na imprensa: nem em jornal e nem em rádio.

– É que essa nossa imprensa é muito desinformada (respondo).

Quando volto a casa, é que me vejo em que maus lencóis me enrolei.

Nunca mais pisei no colégio, tal a vergonha que tive de mim…

Doraci insistia para saber o motivo:

– Mas o que houve, João?

– Nada; não dou para ser professor…

– Mas como? Você não era louco para ser professor?

– De Português.

– É; de português, tá difícil. E agora ficou pior ainda. Ficou muito chato pra mim você sair sem dar satisfação. Não tenho mais coragem de falar com professor Francisco.

Já estava desenganado, quando, três meses depois, me chega Doraci com a “bomba”; a notícia inesperada mais esperada por mim, àquelas alturas:

– Professor Francisco quer falar com você… Você vai assumir Português no Paulo VI.

Numa rápida reunião, doutor Francisco me explicou:

– Olha: resolvi lhe dar uma oportunidade. Mas é por pouco tempo. A professora de Português vai fazer uma pós-graduação e resolveu me entregar as turmas. Pensei em você, mas confiando em Doraci; como já disse, não acredito que um menino como você saiba Português.

Foi uma festa!

Conquistei as turmas; na primeira festa do colégio, em homenagem ao Dia do professor, fui muito festejado e inclusive fiz um discurso emocionado e emocionante. Quando a Pós-graduada voltou, não havia mais espaço para ela; um estudante do da 2ª série do 2º grau do Lyceu Paraibano “tomara-lhe” o lugar…

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